Musicalizando

Steven Wilson – To The Bone (2017): A mudança que uma hora chegaria?

 

Depois de conseguir um pre-release do álbum logo após o lançamento do single Refuge e ouví-lo mais de cinquenta vezes (esta informação é literal e não figurativa), finalmente consegui escrever esta que será a maior resenha que já postei aqui no blog, lotada de links de referência. Como conhecedor da carreira de Steven Wilson e acompanhá-la de perto por tantos anos, eis aqui finalmente a resenha de um álbum inédito deste grande músico. Peço licença para possíveis erros de PT-BR, pois estou numa correria danada e escrevi demais para revisar tantas vezes quanto gostaria.

A transição

Ano passado escrevi uma resenha aqui no blog para a coletânea Transience do Steven Wilson, e nessa resenha mencionei que, além do fato de SW estar se adaptando a formatos mais convencionais da indústria musical, a coletânea continha seus trabalhos mais acessíveis de seu repertório mais recente. Como havia dito, Steven buscava introduzir sua música para um novo público, mas poderia enganar os desavisados. Bem, como uma mente diabólica e genial que é, a jogada não enganaria os desavisados agora com seu novo álbum, mas prepararia (ou não) aqueles que o proclamaram como “rei do prog”, pois agora, assim como grandes nomes do prog como Peter Gabriel e Phil Collins, e bandas como Yes e ELP, chegou o momento em que Steven talvez tenha passado para o outro lado. Para estas bandas que mencionei, eu não consigo aceitar até hoje a fase “pop: insossa destes músicos, exceto por alguns destaques, portanto para esta resenha não pretendo analisar somente o álbum To The Bone, mas também algumas entrevistas e informações controversas que me levaram a ouvir o álbum com um tremendo preconceito e ter feito uma imersão muito grande antes de entendê-lo e aceitá-lo.

Esta não será a primeira vez que Steven Wilson muda da água para o vinho, e tenho que dizer que não é problema uma pessoa mudar de ideia, mas eu sempre fico com um pé atrás quando alguém mete o pau em um assunto e repentinamente muda de opinião. No caso do SW a nova fase começou com a história do streaming. SW sempre foi um defensor dos formatos de alta fidelidade, esmagando iPods no documentário Insurgentes (veja você mesmo) e posteriormente em entrevistas recentes, como esta entrevista para a Team Rock em 2015, dizendo que seu material continuaria apenas em mídia física, pois o streaming era um modelo falho. Em 2016, em uma nota em sua página oficial, SW jogou a toalha e finalmente se rendeu ao formato, menos de um ano desta outra entrevista que menciono. Ele diz que não mudou sua opinião sobre o formato, mas reconheceu que o streaming seria uma forma de levar o seu trabalho para mais gente, resumidamente. Foi uma decisão no mínimo sensata, mas também estratégica para seus próximos passos.

Ainda no ano de 2016, no qual ele conseguiu fazer um show incrível em uma péssima casa de shows aqui no Brasil (por favor, é a minha opinião, respect), Steven falou sobre seu próximo álbum em diversas entrevistas, cito aqui pelo menos uma muito importante, para a Rolling Stone India, que estava sendo planejado para o lançamento em Novembro de 2017, no aniversário de 50 anos do músico. Steven comenta que o álbum poderia não ser apenas um, mas dois, que já tinha escrito algumas músicas e que por se tratar de seu aniversário de 50 anos, algo representativo para ele, o álbum representaria diversas facetas de sua carreira, diferentes estilos que ele já explorou, seja um lado mais jazz, um lado mais metal ou ambient. “P*rra, isso seria fantástico!”, pensei naquela época. Retornar ao metal melancólico e agressivo de Fear of a Blank Planet (conhecido também como meu álbum favorito de todos os tempos) trazer o ambient/drone de Bass Communion e combiná-lo com o art rock do Blackfield. Expectativas…

Coisa linda

Em outra entrevista, neste mesmo ano, Steven foi questionado sobre o fato de que, ao escrever músicas pop, ele tende a desconfiar e modificar, e ele deu uma resposta bem incisiva sobre a questão, dizendo que seu instinto era fazer as coisas mais complicadas do que deveriam ser, que ele é um artista e não um “animador”, que não está nem aí para o que os fãs vão pensar. Esta última sentença sem dúvida ele cumpre neste álbum, principalmente para os fãs do prog de SW.

Algum tempo depois, próximo ao final do ano de 2016 e início de 2017, entrevistas como esta aqui em que subitamente SW começa a falar sobre pop, citar mais suas influências pop, estrategicamente preparando os fãs. Antes de você, talvez um manjador, atirar a primeira pedra em mim e dizer que ele já fazia cover de Prince antes de mudar da água pro vinho, SW sempre quando comentou sobre suas influências no passado, costuma ser bem consistente, falando sobre os discos que os pais lhe apresentaram, fala sobre Rock, sobre Tangerine Dream e muitos outros, mas ele nunca falou tanto sobre pop, nunca tentou justificar tanto que existe o pop para entreter e o pop artístico. Em suas playlists, que ele divulgava no próprio site, sempre rolava um álbum do Tears for Fears aqui ou ali, mas ao mesmo tempo que rolava bem mais músicos como Ryuichi Sakamoto e Sun Ra, totalmente opostos ao popQuando saíram os primeiros teasers de To The Bone e Pariah, um solo de gaita e um dueto com Ninet Tayeb, eu fiquei bem animado, eram momentos fortes e continuam sendo no contexto do álbum. Entretanto, em Abril as coisas começariam a mudar, bem como a identidade visual ao redor de Steven Wilson.

Um rosto

Em 9 de Abril Steven Wilson anunciou em seu site que assinara um contrato com um braço da gigante Universal Music, a Caroline Records. Confesso que naquela época a primeira coisa que passou na minha cabeça foi que SW seria distribuído em maior escala, mas a conversa que tive com uma colega de trabalho que também acompanha sua carreira já expressava algumas preocupações dele estar em uma gravadora deste calibre. Estas preocupações se concretizaram no mês seguinte. Veja, SW é a mente diabólica por trás de tudo, portanto, devo dizer que não foi a gravadora que “mudou” ele, e sim ele que mudou antes de revelar ao mundo, e a gravadora sem dúvida quis embarcar nesta mudança.

Em 9 de Maio, exatamente um mês após a notícia anterior, SW finalmente anunciou seu novo álbum, se eu não estou enganado inclusive revelando a capa pela primeira vez, um assunto que vamos discutir mais adiante. A data de lançamento foi adiantada para 18 de Agosto, legal, eu não precisaria esperar tanto para mais uma “masterpiece” do mestre, entretanto, uma parte da entrevista me preocupou imensamente. “Meu quinto álbum é, em grande parte, inspirado por álbuns de “pop progressivos” imensamente ambiciosos que amei em minha juventude – imagine So de Peter Gabriel, Hounds of Love de Kate Bush, Colour of Spring de Talk Talk e Seeds of Love de Tears for Fears.” disse ele, numa tradução livre minha. Por mais que eu ame Tears for Fears desde criança e seu álbum Elemental ser um dos melhores 10 álbuns que já ouvi, fiz questão de ouvir álbum a álbum citado e imaginar o que sairia das mãos de SW. Todos os álbuns contém texturas complexas, estruturas simples, fáceis de ouvir e acessíveis, exatamente o oposto do que não somente você deveria esperar do Steven Wilson, mas também algo que ele mesmo disse que se distanciava, como já citei aqui. Mas também lembre-se que o SW está pouco se f*dendo para o que você acha. Lembra-se da coletânea Transience? Lembra-se das entrevistas citando pop? Tudo convergia para este momento.

Outro elemento deveras preocupante para mim foi o fato de que todas as imagens promocionais do álbum, TODAS, sem exceção, continham apenas o ROSTO do Steven Wilson. Tudo bem, o cara tem quase 50 com cara de 30, mas boa parte dos álbuns do SW e do restante de sua carreira são experiências visuais deslumbrantes, com fotos e ilustrações artísticas e sombrias. Estas peças sempre foram de grande inspiração para mim, a tal ponto que importei o livro Index, com quase 300 páginas destas artes de Lasse Hoile (já falamos sobre ele aqui no blog) e Carl Glover.

Ver o rosto do SW repetidas vezes, em diferentes cores, não me pareceu algo que me fez ter vontade de comprar a versão deluxe do álbum. Seu álbum anterior, Hand. Cannot. Erase. (confira aqui a resenha do álbum pelo blog parceiro Rock Em Balboa), conta com um livreto deluxe complementar que eleva ainda mais o nível do álbum, dando vida à personagem do álbum, trazendo recortes de jornal, cartas, fotos. SW criou até um blog da personagem (o link está fora do ar =/)! O máximo que aconteceu desta vez foi SW reformular o site e ficar mais sociável, participando mais no Facebook, Spotify e afins. Sair de algo tão interessante e complexo para um monte de fotos do rosto pintado do SW me decepcionou bastante. Daí pra frente, como ele mesmo disse em uma de suas entrevistas, foi só um espiral para baixo, e por sorte, para cima novamente no final.

Os singles

Utilizando a força do streaming e das redes sociais, SW programou cinco singles para o lançamento do álbum. É praticamente metade de todo o conteúdo. Geralmente SW é um mestre na produção, escolhendo cada elemento a dedo, a ordem, porém dessa vez, até mesmo ele, depois da repercussão negativa de alguns dos singles, disse que preferia que as pessoas ouvissem as músicas no contexto do álbum (mas então, pra quê singles? bem, eu sei a resposta, mas prefiro que você pense nisso). Vou aproveitar o gancho para falar sobre os singles, e quando chegarmos no álbum, vou falar apenas sobre as músicas inéditas, ok?

O primeiro single foi Pariah, lançado no mais novo canal VEVO de SW. Vevo para quem não conhece é uma joint venture da Universal, Warner Music, Sony, enfim, as gravadoras grandes, tem vídeos dos artistas deles, enfim. Para quem esperava uma Routine, Pariah é uma música com um momento espectacular, que poderia ser melhor trabalhada levando em consideração a veia prog do músico, mas a partir deste momento, devemos esquecer o prog. Se você leu SW no começo da matéria e não ouviu os singles, nem o álbum, se não entendeu ainda, entenda agora: esqueça o prog. Portanto, é uma belíssima música, que fala sobre um relacionamento problemático, o cara tá cansado de Facebook, cansado de viver, e a moça tentando mostrar a ele uma outra perspectiva. Sobre o clipe, rosto da Ninet, rosto do SW, o momento que a Ninet arrebenta tem um climax visual brincando com cores, seguindo a proposta visual do álbum. Até aqui, tudo bem.

The Same Asylum as Before foi a próxima escolha, uma canção curta, com um falsete bem estranho do SW (que ele mesmo já admitiu que é algo novo, que ele precisa melhorar) e uma sonoridade muito parecida com outra música, da época do Porcupine Tree, Prodigal. As músicas tem refrões e viradas com os mesmos acordes, tocados de formas diferentes. Teve gente que fez até vídeos mesclando as duas músicas (se não sair do ar, veja aqui). Fui inclusive duramente criticado por um colega por conta de apoiar esta opinião, pois é “normal“, principalmente para SW, reutilizar trechos e acordes de músicas que ele mesmo compôs, porém devo dizer, como conhecedor de sua carreira, desta vez foi notável demais. Enfim, a música tem uma estrutura mais pop rock, que remete aos tempos mais acessíveis do Porcupine Tree, mas sem a mesma genialidade dos músicos convidados da época. Aqui devo ressaltar que os virtuosos da guitarrista e da baterista dos álbuns anteriores, Marco Minnemann e Guthrie Govan, não participaram e provavelmente não participarão por conta de uma dissidência que ocorreu na época em que SW ganhou disco de ouro pelos álbuns The Raven That Refused to Sing e Hand. Cannot. Erase. e disse que a gravadora mandou os discos de ouro para os músicos da outra “fase” da banda (Craig Blundell na bateria e Dave Kilminster na guitarra) ao invés de mandar para os músicos que realmente estavam no álbum. Em um post que fora deletado logo em seguida, Marco Minnemann destilou sua raiva rebatendo que SW “fazia parte” da gravadora e estava “se vingando” por conta dos músicos não terem participados das turnês por conta de outros compromissos, como a turnê da banda solo dos dois com o baixista Brian Beller, o The Aristocrats. O que quero dizer com isso é que, depois de ter visto o rol dos músicos que participaram de To The Bone, senti falta da virtuosidade destes caras, que era balanceada pelo SW para ter o resultado sublime que ganhou os discos de ouro mencionados. A música fala sobre política, sobre o fato de que não importa quem esteja no poder, continuamos no mesmo hospício de sempre.

Song of I foi o terceiro single e confesso que num primeiro momento, eu não gostei da música, mas como já disse, é preciso esquecer o prog para apreciar o álbum. Achei muito simples, reutilizando timbres de Sleep Together de um jeito muito desleixado e numa vibe Ultra do Depeche Mode (banda que citou como influência para esta música) que não chega aos pés do álbum mencionado. Mais uma vez, Steven está no centro, ou melhor, seu ROSTO está no centro do clipe. Sem dúvida é o melhor dos clipes deste álbum até agora, me lembrou bastante o clipe de Index, sombrio, denso, mas tem momentos do clipe que me pareceram um pouco forçados, “sem jeito mandou lembranças”. O clipe tenta ilustrar a dualidade amor/obsessão presente na música de uma forma teatral. Não é bem a cara do SW estar sempre no centro. Ainda assim, ele está no direito. O álbum não é conceitual sobre ele, mas é o aniversário de 50 anos do homem e se ele quis assim, paciência. Hoje, no contexto do álbum, pensando no aspecto sonoro, Song of I flui bem mais entre People Who Eats Darkness e a masterpiece Detonation, mas vamos falar disso mais adiante. Como amo Sleep Together, acabei gostando no final das contas pela nostalgia, um ponto bem explorado no álbum.

Antes de lançar o clipe da canção, ou o single em si, Steven anunciou que Permanating era a única música realmente “feliz” que já havia composto, sendo uma das faixas que tinha mais orgulho do álbum e que planejava colocar uma dança de bollyhood para ilustrar a canção. Quando vi as fotos do que seria a pré-produção do clipe, pessoas vestidas com trajes indianos dançando pelas ruas e um piano colorido, foi um choque. Tudo soou muito falso, muito deslocado. A faixa, que foi lançada antes do clipe num video com a letra da música, totalmente deslocada. Numa vibe Coldplay, uma citação curiosa, já que uma vez SW fez questão de exibir um papel com um xingamento à banda que foi jogado no palco (veja aqui), a música é completamente diferente, realmente, de tudo o que SW já fez, diferente a ponto de não ter nada a ver com o músico. A letra gruda facilmente na cabeça, tem bastante repetição de camadas simples e tem uma estrutura para tocar no rádio. Não é a toa que Steven tem tocado ela bastante ao lado de Pariah, como neste vídeo bizarro na televisão alemã. A música fala sobre fixar um momento de felicidade na memória, uma pegada super positiva, mas na boa, nem no álbum ela funciona. Permanating está entre Refuge e Blank Tapes, faixas com um clima bem diferente. Pensando em como Steven cria álbuns fluídos e bem intercalados, acho que ele poderia ter colocado Permanating entre Nowhere Now e The Same Asylum as Before e jogado Pariah entre Refuge e Blank Tapes, agrupando melhor alguns conceitos sonoros ao invés de ficar quebrando toda hora.

O último single, Refuge, é sem dúvida o melhor de todos. A música tem um conceito moderno tanto musicalmente quanto liricamente, falando sobre a questão dos refugiados sob o ponto de vista de um personagem. É uma música que cresce, que encanta, tem momentos ao nível que o Steven Wilson pode proporcionar e foi a alegria dos progueiros de plantão, pelo que pude ler em inúmeras resenhas em sites do nicho. A sonoridade é complexa, a sobreposição de camadas flui, enfim, é do jeito que eu gosto. A faixa também contou com um vídeo de making of  bem legal, vale a pena conferir.

O álbum

Como citei no início da resenha, antes de ouvir o álbum na integra, eu já havia ouvido os álbuns citados por SW como influências para a construção de To The Bone, e single a single minha preocupação com um álbum ralo foi aumentando. Por mais que SW sempre acaba me surpreendendo há uma década, Permanating foi praticamente uma gota d’água. Refuge me deu um raio de esperança, que acabou por se concretizar mais tarde, ainda bem…

Alguns dias antes do lançamento, como já fizera em outras oportunidades, Steven soltou notas no Facebook, um guia com parte 1 e parte 2 explicando o conceito de cada faixa, além do vídeo abaixo, portanto caso você queira se aprofundar nos conceitos e saiba um pouco de inglês, confira antes de ouvir o álbum na integra, pois fará alguma diferença. Não vou entrar em detalhes para não ficar repetitivo.

Depois de muita antecipação, rostos de Steven pra lá e pra cá, live no Facebook, eventos de pré-audição no Reino Unido, To The Bone foi lançado em 18 de Agosto. Contando com onze faixas e cinquenta e nove minutos, o álbum completo reservava o melhor da experiência, com faixas bem melhores que os singles apresentados. A faixa inicial homonima, To The Bone, chega pra arrebentar, com toques de guitarra que foram tirados que parecem ter vindo da introdução de Time do Pink Floyd e a gaita animal de Mark Feltham, que trabalhou em um dos álbuns citados por Steven Wilson como influência (Talk Talk – The Colour of Spring). Sem dúvida é uma música para aumentar o som, abrir as janelas do carro e cantar o refrão “Hold on…” bem alto. O detalhe aqui é que a letra da música não foi escrita por SW e sim por Andy Partridge, responsável por grandes sucessos da banda XTC, para a qual Steven fez vários remixes de seus álbuns. A faixa tem certa conotação política, assim como The Same Asylum As Before, mas fala sobre a verdade e como ela pode ser distorcida e manipulada.

Nowhere Now na sequência é uma faixa “feliz”, tem uma sonoridade um pouco diferente do SW que eu estou acostumado na última década, fala sobre como a humanidade tem andado para trás ao invés de ter progresso em determinados tópicos, uma letra fácil de cantar, uma estrutura bem pop. Aceitável, mas não brilhante. Já falamos de Pariah, de The Same Asylum as Before, Refuge e Permanating, então vamos pular para Blank Tapes, a sétima faixa do álbum. Mais uma vez temos um dueto, uma faixa que fala sobre um relacionamento praticamente acabado, da perspectiva de cada personagem, usando a metáfora da fita em branco que nunca foi gravada, nunca foi usada para ser uma mixtape, algo bem antigo porém significativo para quem entende a importância das mixtapes do passado. Gostei bastante das texturas usadas na música e do feeling que ela passa, ainda mais depois de entender a metáfora.

People Who Eat Darkness é uma das minhas top 3, uma faixa rebelde como uma sonoridade um tanto quanto punk, agressiva, bruta, que mais parece uma faixa da carreira solo de Ninet Tayeb. Inspirada nas entrevistas após o ataque terrorista na boate Bataclan na França em 2015, Steven expõe a perspectiva de um personagem que é invisível na sociedade, alguém que parece comum, mas entre quatro paredes planeja a destruição e o mal. O tema “a escuridão que habita em nós” é algo que me atrai muito, tema de muitas de minhas histórias autorais, como meu primeiro livro O Inominável, portanto a sonoridade somada ao tema ganhou meus ouvidos.

Passando por Song of I, temos a melhor faixa do álbum e uma das canções mais incríveis compostas por Steven Wilson, Detonation. Com 9 minutos e 20 segundos, a faixa que novamente fala sobre terrorismo, mas desta vez sob o ponto de vista religioso do assunto, se destaca totalmente de todas as composições da música, um presente aos fãs do prog que acreditaram no “rei do prog”. Com uma estrutura semelhante à faixa Ancestral do álbum anterior, Detonation cresce camada a camada, criando um clima tenso como sua letra, que se desenrola em uma batida complexa, guitarras intrincadas, texturas de teclado atmosféricas e um compasso melhor que o outro. Confesso que ouvi essa faixa pelo menos meia centena de vezes até o momento e ainda não consegui enjoar.

Por fim temos Song of Unborn, que encerra um álbum com um clima de esperança, uma mensagem positiva e reflexiva. A canção que tem cara de encerramento, uma balada com coro e texturas delicadas, fala sobre um assunto contrário à filosofia de SW, que diz jamais pretender ter filhos, sobre o legado que deixamos aos nossos filhos, uma canção dedicada àqueles que ainda não nasceram. Como toda canção de encerramento, funciona bem no contexto do álbum, principalmente depois de uma faixa tão brutal quanto Detonation.

Ainda temos as faixas bônus, as mais experimentais e deixadas de fora, mas como não está disponível no Spotify, vou deixar essa parte de lado, afinal essa resenha já está grande demais.

O que podemos esperar agora?

Após o recente lançamento do álbum, Steven tem feito uma promoção pesada principalmente no Reino Unido, onde na semana desta presente resenha esteve em primeiro lugar nos charts de vendas. Tem sido nomeado como “o maior artista pop que você ainda não conhece” e o “invisível” que está atropelando os artistas mais famosos nas vendas sem sequer estar nas rádios/TV em grande escala, como você pode ver na entrevista que saiu essa semana no The Guardian. Steven, apesar de tudo, tem tentado ser algo um tanto quanto diferente do que é, mas nem sempre tem conseguido convencer. No primeiro pocket show de lançamento, falou bobeira no palco, perdeu a palheta, errou acordes, arrebentou corda no meio da música e levou tudo numa boa, na zoeira de sempre, como quando tocou Normal ao vivo num evento pela primeira vez e não conseguiu acertar os acordes sem tentar uma dez vezes, mesmo com a ajuda prévia de ninguém menos que o gigante Robert Fripp do King Crimson.

Steven é declarado o cara que gosta de se desafiar e desafiar os fãs, de deixá-los incomodados, de fazer o que quer. Monta e desmonta bandas, tem projetos de Drone ao Pop, portanto, tudo o que podemos esperar é uma turnê que combinará outras canções de sua carreira solo, provavelmente algumas das que compõe a coletânea Transience, quem sabe alguns clássicos do Porcupine Tree. Espero que ele mantenha a tradição de tocar o álbum na integra, pois ficaria decepcionado em não ouvir Detonation em som quadrifônico. E sem dúvida, estarei lá, mesmo que seja na mesma casa de shows merda da outra vez.

Concluindo

Num âmbito geral, To The Bone é um álbum que apela para a nostalgia dos álbuns dos quais toma como influências e ao mesmo tempo se mescla à genialidade de SW, criando um meio termo bem equilibrado. O álbum tem grandes chances de explodir e quem sabe Steven pode estar caminhando para se tornar grande como seus ídolos David Bowie e Prince, mesmo estando próximo ao seu aniversário de 50 anos. Como já mencionei na resenha de Transience, minha relação com a música do Steven Wilson é muito pessoal, e de longa data. Para falar sobre ele, como sempre, eu sou obrigado a economizar palavras, apesar desta resenha ter pelo menos duas vezes o tamanho da maior que já escrevi aqui.

Confesso que fui surpreendido pelo resultado final, principalmente com Detonation, mas o álbum não foi uma evolução do que ele trouxe com a sequência Grace -> Raven -> HCE. Acredito que foi um passo numa direção bem diferente, um recomeço, e assim como o recomeço com Insurgentes, levará uns bons anos e mais alguns álbuns para que algo tão incrível como Hand. Cannot. Erase. ou quiçá como Fear of a Blank Planet surja novamente.

O que expus na resenha de Transience vale também para o To The Bone. Os que conhecerem SW pelo To The Bone sem dúvida ficarão surpresos com boa parte daquilo que o antecede, mas entendo que esse efeito provavelmente é o mesmo daqueles que descobre que o Peter Gabriel de Sledgehammer é o mesmo cara que dança vestido de flor no Genesis em Supper’s Ready, ou que Phil Collins antes de cantar em filmes da Disney era um puta baterista na mesma banda do citado anterior. Sem falar no David Bowie, que tem uma das discografias mais inconstantes que já ouvi.

Aos 50 anos, é curioso ver Steven Wilson se reinventando desta forma, querendo tomar um espaço que hoje está vago, sem a presença de um grande artista pop que tenha uma complexidade e presença Bowistica. Não sei se a persona de Steven tem tanto poder quanto os personagens de Bowie, a extravagância de Prince ou mesmo o carisma de Peter Gabriel. Para mim, Steven representava a epítome da experimentação, do desapego aos rótulos e um rio de originalidade, um músico com um catálogo vasto englobando os mais estranhos dos sons, gêneros e texturas, compondo algo único a cada álbum. Vê-lo rotulando seu próprio álbum como um “pop progressivo” e trilhando um caminho mais “seguro” é algo que eu ainda preciso de mais tempo para absorver. Enquanto isso, me agarro ao que tenho, já sentindo falta de um novo Raven, H.C.E. ou FOABPlanet, espero não ter me esquecido de nada que queria colocar nesta resenha e sigo cantando as fáceis letras de To The Bone.


Banda: Steven Wilson
Álbum: To The Bone
Gênero(s): Crossover Prog, Art Pop
Lançamento: 18 de Agosto de 2017
Duração: 59 minutos
Classificação do blog: 4.0/5

Faixas:

1 
To The Bone
2 
Nowhere Now
3 
Pariah
4 
The Same Asylum As Before
5 
Refuge
6 
Permanating
7 
Blank Tapes
8 
People Who Eat Darkness
9 
Song of I
10 
Detonation
11 
Song of Unborn

 

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