Musicalizando

Marco Minnemann – Schattenspiel (2016): Experimentação e virtuosismo na bateria

marco-minnemann-schattenspiel

Mais um lançamento solo para o ano de 2016 do baterista virtuoso alemão Marco Minnemann, Schattenspiel segue a mesma linha dos álbuns instrumentais do baterista e de artistas do mesmo calibre: dezenas de trechos improvisados, experimentação ao extremo com alguns momentos organizados. Um prato cheio para os amantes do gênero, talvez não tão acessível mesmo para os ouvidos mais desafiadores.

Duas pernas, dois braços, quatro ritmos

Baterista de inúmeros projetos como a banda The Mute Gods com seu parceiro de Steven Wilson, Nick Beggs, The Aristocrats com Guthrie Govan (Steven Wilson, Hans Zimmer…) e Bryan Beller (Joe Satriani, Steve Vai, Dethlok…), ou Levin Rudess Minnemann, um projeto com seus amigos lendários Tony Levin (King Crimson, Peter Gabriel…) e Jordan Rudess (Dream Theater), Marco possui um curriculo vasto que vai do metal com Kreator e Necrophagist, músicos solo como Joe Satriani e Paul Gilbert, e inúmeras participações em álbums de nomes desconhecidos ou em ascensão, como o guitarrista Plini. Marco Minnemann também é conhecido por seu “extreme drumming” e suas técnicas de bateria absurdamente complexas. Sua marca registrada é o fato de que Marco consegue tocar quatro ritmos individuais em tempos diferentes usando seus braços e pernas de forma totalmente separada. Tente você em casa bater um intervalo de dois em dois segundos com uma mão e três em três com a outra. Marco consegue fazer isso tão facilmente quanto respirar.

O jogo das sombras

O nome do álbum do alemão significa jogo das sombras. É um título interessante se for levar em conta os sons que são tocados nos “espaços em branco” dos complexos compassos que o compõe, mas nem tanto se comparado com as letras cantadas por Marco. A complexidade do álbum é um ponto de atenção para esta resenha, visto que eu não sou nem de longe um músico, portanto talvez eu não seja a melhor pessoa para fazer uma resenha sob o ponto de vista técnico, portanto, vamos falar do conceito, e da sonoridade. Além disso, esta é a minha interpretação do álbum, que embora tenha algumas explicações avulsas do Marco aqui ou ali, eu tenho a minha própria narrativa. A primeira faixa, €50, tem uma sonoridade embasada no contraste entre o virtuosismo na bateria e toques de flauta, criando uma ambientação agradável. Foi a faixa que logo me chamou a atenção para o álbum, além do clipe da mesma dirigido por ninguém menos que Lasse Hoile, apesar de que poucos momentos interessantes seguira €50.

Schattenspiel segue uma característica padrão usada por Marco e muitos outros músicos da linha instrumental: o uso de gravações narradas. Principalmente nos primeiros álbuns de sua carreira solo Marco abusou de gravações com discussões, gemidos, trechos de rádio e televisão. Em Schattenspiel o abuso não é grande, mas presente, e desta vez com algum sentido. Em Sandwich, ele improvisa camadas de instrumentos por cima de uma gravação de um casal com a voz robotizada que discute sobre seu relacionamento desgastado, num jogo de “toma-lá-dá-cá”. O tema de relacionamento parece ser o conceito do álbum, pois se repete por praticamente todas as faixas com letra.

Em Wintertime Marco arrisca no vocal, numa canção cuja clima é o oposto da faixa anterior, com o piano como instrumento de frente. ainda sim marco fala sobre relacionamentos, mas dessa vez sob um ponto de vista mais otimista e esperançoso sobre o que está por vir. Em seguida, Calling You / 11 More Days é uma improvisação bem “bagunçada”, misturando alguns sons de xilofone com bateria incansável de Marco. Em alguns momentos o piano entra para dar uma respirada. Mais uma vez o uso de gravações com pessoas falando aparece, com frases jogadas de um casal se cumprimentando. Neste momento do álbum as dúvidas começam a surgir sobre o conceito. A impressão que é deixada é que o personagem masculino, representado por Marco, está vendo outra mulher, com a faixa ilustrando a passagem do tempo do encontro que talvez tenha se passado na faixa anterior.

Duplo relacionamento

All Your Blessing (Didn’t Help) lembra o clima do primeiro disco solo de Steven Wilson, no qual Marco participou, mais pesado e etéreo, com coros, trechos quebrados de bateria, sinos e outros sons “spooky”, que evoluem nas camadas sonoras que permanecem até o final. A faixa titulo começa com um som estranho, que parece um animal selvagem, talvez o lobo que é ilustrado em diversas artes do álbum, até a virada de bateria que dá o inicio propriamente dito. Mais uma vez o som de coro dá o tom “spooky” da faixa anterior, mas com uma guitarra pesada e distorcida acompanhando, adicionando instrumentos que mais parecem ter vindo da trilha sonora de um jogo como Mortal Kombat. Em Krampus, Marco sai do conceito sugerido do álbum, além de ser uma faixa irritante. Marco delinea de forma músical a figura do “Papai Noel invertido” de histórias europeias, com sons infantis acompanhados da guitarra pesada. O refrão instrumental evoca um sentimento nostalgico para mim, novamente vindo de trilhas sonoras de jogos de videogame, mas ainda sim é a faixa mais difícil de ouvir.

Cut the Thread (Let if Fall) retorna ao conceito junto com o vocal de Marco. Aqui o clima pesado da segunda faixa volta, descrevendo o fim conturbado de um relacionamento, com um instrumental que tem momentos improvisados. Aqui um vocal feminino canta o refrão com Marco, reforçando a ideia do tema proposto. Mais uma vez, Marco não deixa claro, mas é possível interpretar o fim ou a iminência do fim do relacionamento da segunda faixa. Throw a Stone (And Break a Glass) começa com um vocal distorcido, que dificulta o entendimento da letra, já que também Marco não é um cantor exímio. A bagunça fica mais confusa com a gravação narrada de uma mulher falando em Maltese. A impressão que fica é o sentimento do fim do relacionamento da faixa anterior. A canção é a mais longa do álbum, com 9 minutos e 20 segundos. Depois dos três minutos a faixa fica mais interessante, com uma guitarra distorcida com eco, instrumentos étnicos e um piano leve, que contrastam com a pancadaria de Marco na bateria, tocando em tempos que eu não tenho conhecimento suficiente para descrever. A faixa para respirar na metade com o piano solado, um violão e um teclado que lembram Dogs e Welcome to the Machine do Pink Floyd, e seguem evoluindo até o final. Se não fosse pelo começo bagunçado seria minha faixa favorita

marco-minnemann

Sleepwalker é sem dúvida minha faixa favorita. Mais uma vez o instrumental de Marco evoca o instrumental sintetizado de jogos de videogame como Digital Devil Saga, já mencionado aqui no blog, entretanto, a faixa cantada por ele me faz imaginar como seriam certas canções de jogos com uma letra por cima. Como já mencionei, Marco não é um vocalista profissional, cantando apenas no seu tom para servir o propósito de estar ali, mas Sleepwalker é uma faixa que pulsa, talvez musicalmente falando a mais simples e mais atraente do álbum. Sei que deve ser difícil para virtuosos como ele, que conseguem tocar 4 ritmos diferentes na bateria simultaneamente em tempos diferentes, fazer músicas mais “fechadas” ou até mesmo progressivas mas sem se perder em milhares de notas, entretanto não é a linha que o álbum segue. Sleepwalker se difere das demais faixas do álbum, e é a melhor e mais equilibrada delas, seguida de €50. Sleepwalker fala da rotina como se o personagem então segue como um sonâmbulo após o possível fim de seu relacionamento, descrevendo diferentes cenas dos dias que se segue.

A faixa de encerramento é a balada cínica do álbum, Don’t Be Yourself, que junta Marco novamente com uma voz feminina, com uma batida de guitarra sem distorção. Apesar do clima de balada, a letra é uma critica as pessoas que se escondem por trás de uma máscara, de uma forma sarcástica. Com uma voz feminina diferente, o álbum se encerra com um clima melancólico, já que aparentemente a possível fuga e traição do protagonista masculino em Calling You / 11 More Days também não deu certo, afinal, a possível traição não vinha somente do protagonista masculino, mas sim da segunda voz feminina, com a qual traiu a primeira. Com uma frase marcante que pode ser traduzida na seguinte interpretação: “não seja você mesmo, seja outra pessoa, mas você se reconhece?”, Marco encerra o álbum com uma reflexão sobre a jornada falha do protagonista. O conceito em si do álbum não é criativo e inédito pensando no conceito de forma isolada, mas ao relacionar a interpretação, as sugestões e o instrumental, se torna mais interessante.

Concluindo

A carreira solo de Marco Minnemann tem momentos interessantes, mas em sua grande maioria as músicas seguem o estilo experimental apresentado neste álbum, talvez até mais intensamente. Não é um álbum que agrada a todo tempo e não é nada acessível. Os sons usados por Marco que me evocaram um sentimento nostálgico de trilhas sonoras de jogos é o que o mantém em minha playlist de tempos em tempos, mas as faixas Sleepwalker€50 individualmente são os únicos pontos que realmente me chamaram a atenção, mas como disse, para quem gosta deste estilo instrumental experimental, geralmente adotado por músicos como Buckethead, Paul Gilbert e Kevin Moore.


Banda: Marco Minnemann
Álbum: Schattenspiel
Gênero(s): Progressive Rock, Progressive Eletronic, Instrumental
Lançamento: 1 de Setembro de 2016
Duração: 55 minutos
Classificação do blog: 3.0/5

Formação:
Marco Minnemann – vocais, todos os instrumentos
Mike Keneally – guitarra (€50)
Skye Reg Norton – vocal (Cut the Thread (Let It Fall))
Eve Berrington – vocal (Don’t Be Yourself)
Ella Lauthier – narração em Maltese

Faixas:
1 €50
2 Sandwich
3 Wintertime
4 Calling You/11 More Days
5 All Your Blessings (Didn’t Help)
6 Schattenspiel
7 Krampus
8 Cut the Thread (Let It Fall)
9 Throw a Stone (And Break a Glass)
10 Sleepwalker
11 Don’t Be Yourself

 

Site oficial/Canal oficial (Youtube)/Página Facebook

 

Anúncios

Comenta aí!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s