Musicalizando

Anekdoten – Until All The Ghosts Are Gone (2015): Álbum novo com cara de LP

 

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Eleito pelos leitores da maior base de dados do gênero progressivo Prog Archives como o segundo melhor álbum do ano de 2015 (seguido apenas do melhor álbum de 2015, Steven Wilson – Hand. Cannot. Erase.), Until All The Ghosts Are Gone (2015) é um álbum moderno estruturado como um antigo vinil, com 46 minutos de rock progressivo inspirado no clima setentista que não perde para as influências que segue.

Oito anos

Este foi o tempo em que os fãs do Anekdoten esperaram para o advento de seu sexto álbum, o dobro do tempo entre o quarto e o quinto álbum, e o maior “hiato” de estúdio da banda. Não posso dizer que conheço a banda, pois ela nunca me chamou atenção, principalmente porque até o momento desta resenha, me recordo do Anekdoten como uma banda de Symphonic Prog, um subgênero do progressivo que não costuma me agradar, entretanto, depois de uma incrível audição de Until All The Ghosts Are Gone, prestarei maior atenção nos 23 anos de carreira dos suecos, que começaram com seu primeiro álbum, Vemod em 1993. Update: este artigo foi escrito 2 meses atrás. Atualmente (Dez/2016), meu conhecimento sobre o Anekdoten cresceu exponencialmente, entretanto, quero manter o artigo original como foi escrito: em um momento de descoberta.

“Setentando” seu ouvido

Until All The Ghosts Are Gone tem a cara de um disco de vinil setentista já começando pela sua estrutura. Diferente da maioria dos álbuns que vemos por ai hoje em dia, mas um padrão adotado em vários discos do Anekdoten, a duração de Until All The Ghosts Are Gone é de 46 minutos aproximadamente, muito próximo da duração máxima dos antigos discos de vinil. Para um olhar mais moderno, é um álbum curto, ainda mais pensando no tempo entre este álbum e o anterior, lançado em 2007, mas se comparado com os anos 70, era o tamanho máximo da época, e é nisso que o Anekdoten aposta já de cara.

Outra característica da banda que devo repetir em minha análise é o uso extensivo de Mellotrons, o instrumento dos anos 60 que foi popularizado por bandas que são consideradas precursoras do que hoje chamamos de progressivo, como Moody Blues e Beatles, que, como curiosidade, são classificadas em diversas grandes bases de dados da música como proto-prog entre seus subgêneros, e posteriormente grandes bandas do progressivo como Pink Floyd e King Crimson abusaram do instrumento enquanto ele ainda era moda. Não obstante de um integrante tocando o Mellotron no álbum, temos dois, mais especificamente dois Mellotrons N400S, a última versão antiga do instrumento, lançando em 1970. Diferente de um teclado, um Mellotron desse pesa em torno de 55 quilos, e seus sons são gerados por meio de fitas (enormes) que podem ser trocadas no interior do instrumento.

mellotron

Muitos nomes modernos do progressivo optam por usar este instrumento nada portátil e com uma manutenção complicada para evocar os sons que deram origem ao progressivo, e o Anekdoten o utiliza como base junto ao baixo para criar um clima muitas vezes melancólico mas agradável. Como tenho uma certa queda por músicas nesta linha, o álbum acertou em cheio em suas escolhas.

“Hold your head up high/Point the arrows straight at the sky”

Shooting Star se aproveita destas mesmas influências setentistas que bandas como Opeth e Steven Wilson tem resgatado. Não é somente sobre o Mellotron em si ou estilo progressivo analógico da coisa, mas sim a ambientação da música, com o uso de Mellotrons na base, um baixo mais agudo, mais evidente, ou uma distorção característica da guitarra que é usada exatamente nos primeiros álbuns do King Crimson. Há um motivo muito forte para isso acontecer com a sonoridade do Anekdoten. A banda começou como um cover de King Crimson, portanto haverão muitas menções aqui sobre os reis. Especialmente Shooting Star remete ao álbum Heritage (2011) do Opeth, talvez por conta da participação de Per Wiberg (ex-Opeth) no órgão Hammond. A harmonização das vozes ajuda a criar esta ambientação nostálgica. Mas ainda sim, há uma diferença entre as guitarras mais stoner e a harmonia sinfônica que o Anekdoten usou em faixas de demais álbuns que tive a oportunidade de ter contato em algum momento.

Get Out Alive segue no mesmo clima, sendo que na metade da música é quase que como se pudéssemos ouvir a guitarra de Robert Fripp cruzando a sonoridade da banda. E por falar em King Crimson, o mestre dos instrumentos de sopro da banda, Theo Travis, participa das faixas 3 e 5 do álbum. Logo no começo de If It All Comes Down to You, podemos ouvir a tímida flauta de Theo surgir e crescer até se tornar uma camada base da faixa. Aqui temos uma guitarra acústica, um clima mais saudosista, aquela música que te faz balançar lentamente a cabeça de um lado para o outro. Depois de Shooting Star, é minha faixa favorita. É o momento em que o Anekdoten dá uma quebrada no peso melancólico e mais pesado do Mellotron para circundar a beleza da flauta de Theo. Próximo ao final, a guitarra vem inspirada, solando deliciosamente para o deleite de nossos ouvidos, fechando a música da melhor forma possível.

anekdoten

Writing on the Wall já evoca um som de guitarra mais moderno, mais stoner ou art rock que ouvi do passado do Anekdoten, misturado com o clima setentista. Os vocais são mais limpos e ficam na frente da banda, que ambienta com o baixo e a bateria, acompanhando o passo lento da canção, que se desenvolve definitivamente depois de sua metade e percorre até o fim instrumental, ao melhor estilo de Epitaph, mais uma vez, King Crimson. Veja, isso não significa que o álbum é uma mera cópia do King Crimson, porém é difícil não fazer referência quando a banda se baseia em um som tão característico para fazer o seu. Reciclar o outro não é um problema. O problema seria se a banda reciclasse seu próprio som, criando uma versão simplória e resumida de si. Ainda sim, acredito que este clima “discípulos de King Crimson” pode ser um ponto negativo para alguns ouvintes, como li em algumas criticas ao álbum.

A faixa título volta para o clima de Get Out Alive, ligeiramente mais sombrio. Como o álbum em si segue uma linha sonora consistente, a flauta de Theo volta, a guitarra acústica, o clima meio melancólico, trazendo para o som a ideia dos fantasmas mencionada em seu título. A música usa alguns acordes menores em um dos Mellotrons (se meu ouvido não estiver enganado) para dar esse tom mais sombrio e misterioso. O interessante é que a música mais sombria do álbum, que segue a faixa título, tem um título ainda mais sombrio, Our Days Are Numbered, uma instrumentação de oito minutos e meio que encerra o álbum misturando os mellotrons e a base criada em Until All The Ghosts Are Gone com um saxofone agressivo, fechando os 46 minutos “a la LP” do álbum.

Concluindo

Apesar de ter minhas dúvidas quanto o gosto dos leitores e mantenedores do Prog Archives, Until All The Ghosts Are Gone acertou na minha opinião ao mexer com o lado setentista do seu ouvinte. Considerada a melhor época do prog para a velha guarda do gênero, mexer com este sentimento nostálgico é um jeito fácil, talvez até covarde de conquistar alguém. Ainda sim, o som do Anekdoten é consistente e tem uma linha própria, que está evoluindo com a ausência de sua parte sinfônica e as guitarras mais distorcidas que me incomodaram em outro álbuns em uma primeira audição. Talvez agora, atraído por este álbum, eu me atraia mais pelos demais, mas esta é uma questão que só será respondida com o tempo. Por hora, Until All The Ghosts Are Gone foi o suficiente para me agradar.


Banda: Anekdoten
Álbum: Until All The Ghosts Are Gone
Gênero(s): Progressive Rock, Heavy Prog
Lançamento: 10 de Abril de 2016
Duração: 46 minutos
Classificação do blog: 4.0/5

Formação:
Nicklas Barker– vocais, guitarras, Mellotron, orgão
Jan Erick Liljeström – vocais, baixo
Anna Sofi Dahlberg– Mellotron, órgão, Fender Rhodes
Peter Nordins – bateria, percussão

Músicos convidados:
Marty Wilson-Piper – guitarra, guitarra acústica (12 cordas)
Per Wiberg (ex-Opeth) – órgão Hammond na faixa Shotting Star
Theo Travis (King Crimson) – flauta nas faixas Get Out Alive e Until All The Ghosts Are Gone
Gustav Nygren – saxofone na faixa Our Days Are Numbered

Faixas:
1 
Shooting Star
2 
Get Out Alive
3 
If It All Comes Down To You
4 
Writing On The Wall
5 
Until All The Ghosts Are Gone
6 
Our Days Are Numbered

 

Site oficial /Página Facebook

 

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