Musicalizando

Dream Theater – The Astonishing (2016): Surpreendentemente complicado…

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Na tentativa de emular o sucesso de seu álbum conceitual Metropolis Pt.2: Scenes from a Memory (1999), o Dream Theater criou uma metal ópera com tema futurista distópico, um tema que, assim como a sonoridade histórica da banda, soa complicado, mas entrega exatamente o oposto.

O que aconteceu com o Dream Theater do Metropolis Pt. 2?

Eleito em 2011 como o álbum progressivo mais importante da história pela revista Rolling Stone, o álbum Metropolis Pt.2: Scenes from a Memory (1999) foi uma sequencia direta da música Metropolis Pt. 1: The Miracle and the Sleeper, do álbum Images and Words (1992), que por si só já é uma faixa excelente, com um solo de baixo executado com maestria pelo baixista John Myung. Metropolis Pt.2 é um álbum conceitual equilibrado,, que conta uma história incluindo até narrações, com baladas emocionantes como The Spirit Carries On e Finally Free, ou exemplos de virtuosidade como a faixa instrumental The Dance of Eternity, que contém uma sequência de 104 quebras de tempo em apenas 6 minutos. O tempo passou, um dos membros originais da banda, Mike Portnoy, seguiu seu rumo no metal, e o Dream Theater, bom, o Dream Theater mudou. 7 álbuns e 17 anos separam a pérola conceitual da banda da nova tentativa, uma tentativa que chega a insultar os meus ouvidos.

O marketing

Antes do lançamento, a banda criou toda uma expectativa em cima do álbum. Inicialmente, uma figura robótica ilustrava o site da banda, que logo revelou o nome: The Astonishing (em português, O Surpreendente). Um site separado foi criado, e então a imagem do que viria por aí começou a ser delineada. Pouco a pouco, foram colocadas no site informações sobre personagens, sua história, uma mapa, e algumas ideias que permeavam o álbum. A história dualizada entre um império que o usa o poder da música para opressão e rebeldes que lutam contra o império foi mostrada. Em um determinado momento próximo ao lançamento você podia escolher um dos dois lados da história para receber e-mails numa mala direta com uma prévia da história conceituada e criada pelo guitarrista John Petrucci.

Até este momento, eu tinha minhas dúvidas sobre o que esperar, mas ao ler o texto de ambos os lados da história, me senti insultado. Um texto ralo, cheio de clichês apoiados em histórias clássicas do mesmo gênero, como Star Wars, era o que eu menos esperava de uma banda marcada pelo seu virtuosismo e complexidade sonora. O efeito foi surpreendente como o título do álbum, mas de uma forma péssima. E sei que não fui o único. Na página oficial da banda no Facebook, dezenas de comentários surgiram, questionando a integridade do álbum, as intenções da banda. Mas o pior ainda estava por vir.

Uma sequência de emulação

The Astonishing é um álbum duplo, com 2 horas e 10 minutos, 34 faixas no total, sendo 20 do Act I, ou disco 1, e 18 do Act II, ou disco 2. Creio que devo deixar aqui registrado que antes de escrever qualquer coisa sobre este álbum, eu o ouvi pelo menos 10 vezes, ou seja, 20 horas de The Astonishing, para poder critica-lo da forma como pretendo aqui. Não foi um exercício fácil, mas eu tentei espremer o álbum ao máximo para encontrar algo para me agarrar nele, me segurar e dizer “Mas pelo menos essa música é surpreendente”. Mas não.

O álbum depende quase que exclusivamente da orquestra e do vocalista James Labrie emular os personagens para criar uma ambientação. Os demais integrantes soam apagados no meio da bagunça, como apenas mais membros da orquestra. A mistura entre o teclado de Jordan Rudess e a orquestra chega a dar uma sonoridade falsa para o todo. Há momentos que não é possível saber se ele está emulando um instrumento em seu teclado ou se é a orquestra real que está tocando. Muitos arranjos são parecidos com musicais, um ponto que me incomoda bastante, pois apesar de apreciar e gostar de álbuns conceituais, eu não gosto de musicais no geral.

A interpretação de James Labrie é horrível. O vocalista por si só já não tem uma voz das mais agradáveis, principalmente ao vivo. Ao tentar acompanhar o virtuosismo dos demais membros James já chegou ao ponto de romper suas cordas vocais, passar por cirurgia, tratamento e reeducação musical. Em The Astonishing, ele tenta emular o papel de todos os personagens, masculinos ou femininos, mudando ligeiramente a entonação de sua voz, soando falso e forçado. Em Lord Nafaryus, por exemplo, Labrie canta com uma entonação mais grave, acompanhando a ambientação mais pesada que representa o soberano do império ilustrado na história, soando como uma interpretação mal executada do musical “Os miseráveis“. As letras também não ajudam. As frases são simples, cheias de clichês, tentando usar certos adjetivos ou estruturas para expressar um determinado sentimento de forma linear e rala. Na tentativa de marcar o ouvinte, algumas destas frases como “Brother, can you hear me?” são repetidas ao longo do álbum, mas não são suficientemente interessantes para criar uma conexão com o ouvinte, pelo menos não comigo.

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O instrumental do álbum não ajuda a ofuscar a interpretação de Labrie. Faixas como A life left behind, A savior in the square ou Three Days dão a impressão de que algo surpreendente vai acontecer, mas seus pontos altos são logo sobrepostos por uma sonoridade linear que percorre as duas horas de música. O uso de elementos excessivos e orquestrados em todas as faixas faz com que dificilmente alguma se destaque. As únicas faixas que me despertaram algum interesse, mas não o suficiente para serem surpreendentes, foram Dystopian Overture, Moment of Betrayal, Our New World e The Astonishing, que resumem praticamente todos os temas usados no álbum. Se o Dream Theater tivesse somado estas duas faixas com trechos de algumas outras para fazer uma música de uns 20 minutos, como A Change of Seasons, já estava ótimo. O conteúdo ralo não justificou 2 horas de música. Para completar o conjunto da obra, cinco faixas de cerca de um minuto de sons metalizados, robóticos, são inseridos entre alguns conjuntos de faixas como interlúdios para ilustrar o lado NOMACs da história, que são robôs usados pelo império para “criar música”, suprimindo o lado emocional dos humanos nessas criações.

A forçação de barra do álbum vai além da música. Não obstante da ambientação adolescente dos clichês usados, a banda passou a incentivar as pessoas a comparecerem aos shows vestidos como os personagens do álbum, numa tentativa que imagino de trazer uma nova massa de fãs. Este ponto especificamente gerou longas discussões entre fãs em fóruns ou na página oficial do Facebook da banda, e sinceramente me tirou toda a vontade de gastar o meu dinheiro para ver a banda ao vivo. O jeito é esperar que eles lancem um DVD ao vivo com a performance, pois pelo menos em relação à preparação do palco, foram colocados telões que acompanham a banda com animações que se relacionam com a história, criando uma experiência multimídia.

Concluindo

The Astonishing é um álbum que eu não voltarei a ouvir a menos que haja um motivo muito forte, como o lançamento de um DVD ao vivo com sua performance. É um álbum cansativo, frustrante e aquém no que diz respeito ao virtuosismo esperado da banda, ou mesmo sua criatividade sonora. O retrocesso conceitual, que tenta se apoiar em grandes obras como Star Wars ou em tentativas conceituais e teatrais de sucesso do metal de certa forma semelhantes, como The Metal Opera (2001) do Avantasia, BE (2004) do Pain of Salvation ou 01011001 (2008) do Ayreon, peca na qualidade, transformando-se em uma experiência sonora rala. Sem dúvida, dentre os lançamentos que esperava para o ano de 2016, foi o pior, mas não obstante, talvez tenha sido um dos piores álbuns de uma de minhas bandas até então favoritas.


Banda: Dream Theater
Álbum: The Astonishing
Gênero(s): Progressive Rock, Progressive Metal, Rock Opera
Lançamento: 29 de Janeiro de 2016
Duração: 130 minutos
Classificação do blog: 0.5/5

Formação:
James Labrie – vocais
Jordan Rudess– teclado
John Petrucci – guitarra
John Myung – baixo
Mike Mangini – bateria, percussão

Com a adição da Orquestra Filarmônica da Cidade de Praga

Faixas:
Disco 1:
Act 1
1.1 Descent of the NOMACS
1.2 Dystopian Overture
1.3 The Gift of Music
1.4 The Answer
1.5 A Better Life
1.6 Lord Nafaryus
1.7 A Savior in the Square
1.8 When Your Time Has Come
1.9 Act of Faythe
1.10 Three Days
1.11 The Hovering Sojourn
1.12 Brother, Can You Hear Me?
1.13 A Life Left Behind
1.14 Ravenskill
1.15 Chosen
1.16 A Tempting Offer
1.17 Digital Discord
1.18 The X Aspect
1.19 A New Beginning
1.20 The Road to Revolution
Disco 2:
Act 2
2.1 2285 Entr’acte
2.2 Moment of Betrayal
2.3 Heaven’s Cove
2.4 Begin Again
2.5 The Path That Divides
2.6 Machine Chatter
2.7 The Walking Shadow
2.8 My Last Farewell
2.9 Losing Faythe
2.10 Whispers on the Wind
2.11 Hymn of a Thousand Voices
2.12 Our New World
2.13 Power Down
2.14 Astonishing

 

Site oficial/Canal oficial (Youtube)/Página Facebook

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Um pensamento sobre “Dream Theater – The Astonishing (2016): Surpreendentemente complicado…

  1. Eu diria que o Dream Theater fez um trabalho muito louvável no quesito mídia. Lançamento de site, descrição detalhada nos personagens, um provável livro e jogo. Esse é o futuro da música, a interação entre as mais diversas plataformas. Nisso, eles mandaram muito bem.
    Uma pena que faltou o principal: A música.
    A história é fraca, concordo com você. Mas se tivesse uma boa música por trás, seria pelo menos algo sustentado. Agora, o que eles fizeram aí é quase inacreditável. Foi a pior coisa que eu ouvi em 2016, sem dúvidas.

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