Musicalizando

Marillion – F.E.A.R. (2016): A volta dos reis

marillion-fear

Eleito pelo conceituado The Guardian como o melhor álbum da banda nos últimos 20 anos, F.E.A.R. ou Fuck Everyone And Run (F*da todo mundo e corra, no sentido literal) é um tapa na cara daqueles que ainda acreditam que as possibilidades se esgotaram para os britânicos do Marillion, ou para os que ainda vivem na era “Fish” da banda.

Rapidamente, a estrada até o F.E.A.R.

Tenho que concordar, a banda teve o auge de sua carreira nos anos 80, liderada pelo vocalista Derek “Fish” Dick e com sua proposta para um novo rock progressivo, posteriormente nomeado Neo-Prog. Foram cinco discos de qualidade para os amantes do rock progressivo, começando com seu teatral Script for a Jester’s Tear (1983) até o noir Clutching at Straws (1987), último álbum com o cultuado vocalista, que resolveu seguir uma carreira solo, enquanto o Marillion com seu novo vocalista Steve Hogarth (conhecido também como h.) seguia por uma era de confusão sobre a sonoridade da banda, com faixas comerciais que rechearam seu repertório dentre as que definitivamente compõe seu estilo atual, até que finalmente, em meados dos anos 2000, o progressivo definitivo começou a retornar ao gosto de seus integrantes, mas vamos deixar a história da banda para um outro dia.

Algo está por vir, e não é bom

Fuck Everyone And Run é como seu título: descompromissado. Contando apenas com 6 faixas (sendo que 3 delas possuem divisões internas, que foram usadas para delimitar faixas individuais), a banda não se preocupou em criar músicas para serem aproveitadas nas rádios, e sim para contar uma história, uma história deveras preocupante. O álbum fala como o mundo caminha cada vez mais para o individualismo extremo, além de alertar sobre um futuro irreversível onde a ordem mundial é distorcida por aqueles que controlam o dinheiro. É um álbum que fala de política, de meio ambiente e também do ser humano como indivíduo, mas apontando para o mesmo norte: o medo.

Para o vocalista Steve Hogarth, algo está por vir, e não é bom, uma sensação que ele deixa estampada em seu vocal dramático, adicionado ao teclado de Mark Kelly, que se aproveitou de timbres sombrios e melódicos para adicionar ao clima melancólico do álbum. Apesar do título soar agressivo, a ideia do álbum não é exaltar o ódio ou chocar, mas sim mostrar o quão preocupante a situação delineada em suas letras.

Não posso deixar de citar que as guitarras de Steve Rothery estão em seu ápice, com momentos de arrepiar, e alguns de seus timbres característicos que podem ser facilmente distinguidos com poucos acordes. A base construída pelo baixo de Pete Trewavas e a bateria de Ian Mosley não ficam atrás. Falando sobre a bateria, eu não gosto da bateria do Marillion desde o inicio da carreira da banda. Ian Mosley me soa preguiçoso, faltam viradas, falta peso. As vezes parece que a bateria só está ali por estar, alternando entre uma caixa e um prato e olhe lá. Mas até mesmo a bateria neste álbum está na medida certa, o que é um ponto extremamente positivo para mim, que acompanho a carreira da banda com esse pesar.

marillion-banda

“I’m becoming harder to live with/But you can’t see into my head”

O primeiro ponto alto do álbum acontece logo no começo, em El Dorado. A faixa começa tranquila mas logo começa a delinear um cenário sombrio. A faixa completa é longa, com seus quase 16 minutos, entretanto, é na quarta parte, F E A R, é que a mágica acontece. Steve Hogarth dá um show com seus vocais dramáticos e uma letra de tensão. Momentos emocionantes como esse se repetem em vários trechos como na quarta parte de The Leavers – the Jumble of Days ou espalhados pela quinta faixa The New Kings. Não vejo a hora de assistir essas partes ao vivo. O álbum segue com altos e baixos musicais que acompanham a história, mas seguindo o estilo sonoro estabelecido no último álbum, Sounds That Can’t Be Made (2012).

Não é um álbum fácil de digerir para os amantes das fases mais “pop” do Marillion, como no inicio da “era Hogarth”, ou mesmo quem está acostumado com músicas com divisões sonoras menores, em torno 3 minutos. Veja, quando falo divisões sonoras, não estou falando de faixas com 3 minutos, mas sim de estruturas dentro da própria música que mudam constantemente. As músicas do álbum, se analisadas em seu contexto completo, tendem a se “arrastar” para poder criar uma ambientação, uma atmosfera, ou como ouso dizer, para transformar a música numa viagem. Além disso, venhamos e convenhamos, o integrante mais novo do Marillion está com 55 anos. Posso citar uma infinidade de músicos do mesmo gênero que caíram na mesmice ou vivem do passado. Com seus mais de 30 anos de banda, o Marillion ainda está se reinventando, do seu jeito. Mesmo assim, sei que para muitos falta o peso da era “Fish” ou até mesmo uma faixa única emblemática, como a faixa homônima do álbum anterior, Sounds That Can’t Be Made (2012). Pode soar tedioso…

Vale a pena mencionar como curiosidade que um brasileiro foi o responsável pelo vazamento do álbum antes do seu lançamento, o que acabou criando uma repercussão negativa para os meus camaradas do fã-clube oficial brazuca, The Web Brazil, pois houve um momento de confusão sobre a fonte responsável pelo vazamento, um grupo do Facebook com nome semelhante. Conforme esclarecido com a banda e com sua manager, de nada tinha a ver o fã-clube oficial brasileiro. O Marillion tem uma proximidade muito forte com seus fãs, principalmente no que diz respeito aos lançamentos. Os álbuns do Marillion desde o início dos anos 2000 tem sido financiados de forma coletiva num sistema de recompensas hoje adotado por diversas outras plataformas de financiamento coletivo. Uma destas recompensas é uma versão digital do álbum antes do lançamento. Agora é só você juntar as peças e imaginar o que infelizmente aconteceu. Mas, mais uma vez, gostaria de ressaltar que os membros do The Web Brasil jamais fariam algo do tipo, pois conheço muitos deles e sei que possuem um respeito imenso pela banda.

Concluindo

O Marillion é uma banda que faz as coisas do seu jeito. Foi a banda que basicamente inventou o financiamento coletivo para a música, possui um recorde mundial do DVD produzido mais rápido da história e constantemente resolve se reinventar dentro do mesmo estilo (neo)progressivo que começou. Sinceramente não tenho do que reclamar deste álbum. Para mim foi um dos melhores lançamentos do ano, e acredito que se manterá nas minhas playlists por toda a vida, assim como muitos de seus álbuns, seja da “era Fish” ou da “era Hogarth”, ainda se mantém.


Banda: Marillion
Álbum: F.E.A.R.
Gênero(s): Progressive Rock, Neo-Prog
Lançamento: 23 de Setembro de 2016
Duração: 70 minutos
Classificação do blog: 4.0/5

Formação:
Steve Hogarth – vocais, teclado
Mark Kelly – teclado, backing vocals
Steve Rothery – guitarra, backing vocals
Pete Trewavas – baixo, backing vocals, guitarra
Ian Mosley – bateria, backing vocals

Faixas:
1 
El Dorado
i. Long-Shadowed Sun
ii. The Gold
iii. Demolished Lives
iv. F E A R
v. The Grandchildren of Apes
2 
Living in F E A R
3 
The Leavers
i. Wake Up in Music
ii. The Remainers
iii. Vapour Trails in the Sky
iv. The Jumble of Days
v. One Tonight
4 
White Paper
5 
The New Kings
i. Fuck Everyone and Run
ii. Russia’s Locked Doors
iii. A Scary Sky
iv. Why Is Nothing Ever True
6 
Tomorrow’s New Country

 

Site oficial/Canal oficial (Youtube)/Página Facebook

 

Anúncios

Um pensamento sobre “Marillion – F.E.A.R. (2016): A volta dos reis

Comenta aí!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s