Musicalizando

Opeth – Sorceress (2016): O divisor de águas definitivo

opeth-sorceress

Recheado com influências do rock progressivo setentista, toques de stoner rock e metal, o Opeth em seu décimo segundo álbum de estúdio coloca um ponto final em seu passado, deixando definitivamente o Death Metal de lado e mostrando que não importa o quão importante tenham sido para o cenário, este é o som que eles querem tocar.

Um legado sombrio

O que fazer quando a sua banda favorita resolve colocar um ponto final em seu passado? A maioria das pessoas não sabe o que fazer, mas tendem a passar o resto da vida criticando. Aceitar que “os bons tempos” se foram é difícil para quem se agarrou com unhas e dentes ao que se foi, independente do assunto, mas quando você é um ícone para um determinado grupo de pessoas, o impacto da mudança é ainda mais devastador.

Opeth é considerada uma das bandas mais influentes no Death metal progressivo, especialmente na Suécia, onde começou. A banda iniciou sua carreira com músicas longas, que incorporavam elementos acústicos, quebras de tempo e vocais limpos em meio à brutalidade do Death metal. Gradativamente, álbum a álbum, estes elementos passaram de ser apenas adições ao Death metal para compor faixas inteiras, mas foi no álbum Damnation (2003) em que a banda deu os primeiros sinais da mudança que se seguiria. Mais alguns álbuns adiante, em Heritage (2011),  um Opeth sem o Death e sem o Metal aconteceu. A falta de interesse no metal por parte do líder da banda, Mikael Åkerfeldt, a influência do músico de rock progressivo Steven Wilson e a aproximação de ambos ao rock progressivo setentista resultou numa mudança sem volta, que se consolidou, dois álbuns depois, em Sorceress.

Uma mistura estranha

Sorceress pode ser considerado o primeiro álbum “pesado” do Opeth desde o abandono do Death metal, sendo assim, é o primeiro álbum de metal progressivo da banda, depois de dois álbuns de rock progressivo mais purista. Ainda sim, cada faixa do álbum funciona de forma individual, com suas próprias características, apesar de tratarem de temas semelhantes como traição, mudança e questões pessoais abordadas por Mikael nas letras, algo que mencionarei novamente mais a frente.

Uma vez Steven, já era, não tem volta

Uma vez Steven, já era, não tem volta

A influência de Steven Wilson (que por consequência é influenciado por uma pancada de coisas) é notável na estrutura do álbum, que conta com uma faixa curta introdutória (Persephone) e um encerramento (Persephone (Slight Return)), que possuem um instrumental consistente entre si. Em seguida, podemos dividir o álbum em dois, usando a faixa Sorceress 2 como um interlúdio. Na sequência de Persephone, Sorceress é a faixa título, uma mistura de Stoner rock com metal progressivo. A faixa possui uma estrutura simplista, um refrão que gruda, acompanhada por um riff de guitarra tão simples quanto. É uma música que funciona, mas das faixas “completas” do álbum, acredito que esta é a mais fraca. A faixa seguinte, The Wilde Flowers segue na mesma linha, porém apresentado uma estrutura um pouco mais interessante e um vocal mais melódico. O refrão gruda ainda mais do que da faixa anterior. Próximo ao fim da canção, uma calmaria dá o tom para a próxima, Will O the Wisp, uma típica balada acústica do repertório da banda, para então emendar em Chrysalis, uma faixa “a la Deep Purple”, que disseca bem as influências setentistas de Mikael. Então, Sorceress 2 entra para dar uma respirada e servir de combustível para a sequência da segunda parte do álbum.

A voice through the rain tells me I’m here

A faixa The Seventh Sojourn, talvez uma referência ao álbum homônimo da banda The Moody Blues, usa e abusa de escalas étnicas, uma sonoridade levemente psicodélica e viajada, para então emendar no que considero o ápice do álbum. Strange Brew, assim como seu nome, é uma composição estranha, que mistura diversos elementos musicais para criar uma peça definitivamente progressiva. Começando com uma sonoridade misteriosa, se aproveita do vocal melódico de Mikael e do piano, com trechos que se assemelham a canções de Damnation, para começar uma viagem de altos e baixos em seus quase nove minutos de duração. Seu final é épico. Com a base instrumental dando suporte a Mikael, que canta a belíssima frase  “A voice through the rain tells me I’m here/A glance from a veil brings me to tears”.

Depois de subir até o topo, A Fleeting Glance cria um ambiente saudosista, mais calmo e crescente, uma antítese à bagunça da faixa seguinte, Era, em que o Opeth joga tudo pro alto e resolve “botar pra quebrar” tudo. Posso estar enganado, mas tenho a impressão de que há varias indiretas ácidas aos fãs que criticam a banda e ainda tinham esperanças no retorno ao Death metal, principalmente na letra de Era, em seu refrão que ilustra o fim de uma era para outra uma nova começar. A letra também parece ilustrar as dúvidas de Mikael neste momento divisor de águas, que deixa o seu eu adolescente, revoltado e brutal para dar lugar a um homem maduro e saudosista.

Por fim, algumas versões do álbum, como no Spotify, contam com 5 faixas bonus, sendo  versões ao vivo e orquestradas das canções Cusp of Eternity, The Drapery Falls (que contempla vários trechos dos vocais guturais cansados de Mikael) e Voice of Treason, e duas inéditas, The Ward e Spring MCMLXXIV (Primavera 70, título que acredito ser uma alusão à Summer 68 do Pink Floyd por seu título e antítese sonora se forem colocadas lado a lado), ambas puxadas para o rock progressivo. Especialmente a canção Spring MCMLXXIV contém um refrão sonoro muito parecido com uma música Home Invasion do último álbum de Steven Wilson, Hand. Cannot. Erase.

Analisando a sonoridade como um todo, o Opeth não necessariamente inova como fez com o seu Death metal progressivo. A maioria dos elementos do álbum são reciclados dos anos 70 e modernizados, com influências notáveis de bandas como Deep Purple e King Crimson, e adicionados ao lado limpo que o Opeth construiu ao longo de sua carreira. Estes são pontos de atenção, que tem pesado nas resenhas como um ponto negativo, mas que de forma oposta atrairá uma massa de fãs do rock/metal progressivo, ainda mais os que celebram o advento do rock progressivo dos anos 70 como seu auge.

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As artes que representam a capa, singles e outros itens de divulgação do álbum ficam a cargo de Travis Smith, responsável por artes de bandas como Katatonia, Riverside, Amorphis, Anathema, King Diamond, Nevermore e mais uma pancada, além de já ter trabalhado com o próprio Opeth. Sua pintura e desenho são caracterizados por tons sombrios e temas como morte, ocultismo, sangue e relacionados. Suas artes também foram animadas em vídeos das músicas Sorceress e The Wilde Flowers.

O marketing em cima do álbum foi feito principalmente em cima da faixa Sorceress, cujo riff principal fez parte de uma série de videocasts lançados no Facebook sobre a produção do álbum, que foi gravado em doze dias no estúdio Rockfield, no país de Gales, um estúdio clássico no qual grandes nomes como Rush e Queen passaram por (o piano que acompanha a canção Bohemian Rhapsody ainda está lá, e foi usado no álbum). A bateria e o baixo foram gravados ao vivo em conjunto, enquanto os demais instrumentos foram inseridos nas músicas depois. Como todos os álbuns mais recentes do Opeth, Mikael compôs todas as demos das músicas inicialmente para depois entrar em gravação.

Por fim, permeando o lançamento do álbum, não posso deixar de citar que a banda participou de um podcast especial do Spotify, Spotify Metal Talks, que convida bandas do gênero para debater seus lançamentos, sua carreira e curiosidades, mas para o Opeth esse podcast representa algo ainda mais interessante. Na iminência da mudança do Death para o Prog, um dos principais membros, Peter Lindgren, deixou a banda em meados de 2007 por divergências criativas. O membro, que mudou da música para o TI, se tornou um consultor de projetos. Adivinha para qual empresa Peter está prestando consultoria desde Janeiro de 2016? Na mosca, Spotify.

Concluindo

Sou um cara suspeito para falar do Opeth. Até então meu disco favorito era o Damnation (2003), um dos mais polêmicos da banda, apesar de gostar dos álbuns em Death metal. Eu gosto muito da voz de Mikael e da forma como o Opeth sempre abordou a música sem se prender a padrões. Também compartilho da mesma opinião que ele e Steven Wilson sobre o atual cenário do metal, mas acho que Mikael de certa forma e proporção fez com o rock progressivo dos anos 70 o mesmo que ele reclama sobre como as bandas de metal hoje abordam o estilo, uma reciclagem. Como um amante de muitos ícones da origem do rock progressivo, mais uma vez, sou suspeito em falar do álbum, que exalta os bons momentos desta época. Para mim, este foi o melhor lançamento do Opeth como álbum, porém espero que para o futuro da banda Mikael tenha reservado mais truques em sua manga e músicas tão boas quanto A Fair Judgment, do álbum Deliverance (2002).


Banda: Opeth
Álbum: Sorceress
Gênero(s): Progressive Rock, Progressive Metal, Tech/Extreme Prog Metal
Lançamento: 30 de Setembro de 2016
Duração: 90 minutos (com bônus)
Classificação do blog: 4.5/5

Formação:
Mikael Åkerfeldt– vocais, guitarra
Joakim Svalberg – teclado, piano, backing vocals
Fredrik Åkesson – guitarra, backing vocals
Martín Méndez – baixo
Martin Axenrot – bateria, percussão

Faixas:

1 Persephone
2 Sorceress
3 The Wilde Flowers
4 Will O the Wisp
5 Chrysalis
6 Sorceress 2
7 The Seventh Sojourn
8 Strange Brew
9 A Fleeting Glance
10 Era
11 Persephone (Slight Return)
12 The Ward
13 Spring MCMLXXIV
14 Cusp of Eternity (live)
15 The Drapery Falls (live)
16Voice of Treason (live)

 

Site oficial/Canal oficial (Youtube)/Página Facebook

 

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2 pensamentos sobre “Opeth – Sorceress (2016): O divisor de águas definitivo

  1. Não sou profundo conhecedor da discografia do Opeth, mas esse álbum está certamente entre os meus 3 favoritos. Talvez só fique atrás do Blackwater.
    O que achei curioso é que, apesar de eu (e você) achar Sorceress muito acima da média, a internet em geral não compartilha dessa opinião. A galera caiu matando em cima do álbum e desceram a lenha nele.
    Sei lá, talvez sejam apenas haters com saudades da era Death Metal. De qualquer forma, eu esperava uma recepção melhor e não entendi essa rejeição.

    • As criticas que li são fundamentadas em alguns argumentos semelhantes aos que eu achei interessantes neste álbum. Muito se falou sobre a “cópia” descarada de influências setentistas, dos riffs simplificados, da falta de peso em relação aos álbuns antigos, mas a maioria das críticas negativas em contrapartida continua fundamentada nos álbuns anteriores ao Watershed, desconsiderando o Heritage e o Pale Communion. Outro problema que li em resenhas já pensando no lado Prog do Opeth é que o Opeth como Prog não é forte o bastante para estar entre os grandes da atualidade, com uma sonoridade que não inova tanto. A questão é que, odiando ou não, o álbum é o primeiro da banda a entrar em múltiplos charts de vendas pela Europa e lotando shows em sua recente turnê. Ou seja, fãs a banda só tem ganhado, o problema mesmo é a “mídia especializada” hahaha.

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