Musicalizando

Steven Wilson – Transience (2016): Serenidade que engana

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No ápice de sua carreira, com seus dois últimos álbuns recebendo discos de ouro na Europa, o músico e produtor britânico Steven Wilson está se adaptando a formatos mais convencionais da indústria musical. Indo contra alguns de seus discursos ao lançar uma coletânea com os trabalhos mais acessíveis de seu repertório mais recente, em CD e simultaneamente em veículos de Streaming como o Spotify, Steven busca introduzir sua música para um novo público, uma jogada interessante, mas que pode enganar os desavisados.

Um repertório inesgotável

Falar sobre Steven Wilson, ainda mais para mim, sem escrever um textão é muito difícil, então vou me ater ao básico. Ano que vem o músico faz 50 anos, sendo que 35 deles foram dedicados quase que exclusivamente a música, seja como produtor, engenheiro de som, colaborando com outros artistas ou como multi-instrumentista nos seus mais diversos projetos. Altamont, Karma, No-Man, Porcupine Tree, IDM, Bass Communion, Blackfield e Storm Corrossion são “apenas” os nomes dos projetos que já foram ou continuam sendo liderados por Steven, além de sua proeminente carreira solo. Seu catálogo não-oficial mantido por Uwe Häberle do site Voyage PT contempla todos os álbuns com Steven nos créditos, e apesar de não estar atualizada com os lançamentos da metade de 2015 em diante, elencam quase 1200 álbuns.

A escolha sorrateira

Transience (2016) é uma coletânea um tanto quanto controversa. Steven Wilson resolveu delinear sua carreira solo com um repertório de 14 canções especialmente selecionadas para atrair novos ouvintes, mas que pode enganar os desavisados. Exceto pela faixa Index, que representa todas as faces de Steven Wilson independente de qual projeto estamos falando, as demais 13 faixas funcionam em harmonia, entretanto uma harmonia que não condiz com o restante dos álbuns aos quais pertencem. Começando pelo seu passado, Steven resolveu escolher uma música de sua carreira com o Porcupine Tree, mais precisamente uma regravação realizada em 2015 de Lazarus, do álbum Deadwing (2005). Não vou entrar em detalhes sobre o álbum, porém posso dizer que de todas as músicas de Deadwing, Lazarus, uma música bonita, com uma estrutura simples e funcional, mas é a única que destoa totalmente do estilo das demais.

As demais faixas da coletânea se encaixam ao estilo mais acessível de Lazarus, mesmo as mais pesadas como Harmony Korine e The Pin Drop. Steven, especialista em edição e mixagem, se aproveitou de suas habilidades para incluir versões editadas das canções Happy Returns e Deform to Form a Star, que originalmente possuem partes instrumentais estendidas, com 6:00 e 7:50 respectivamente. Já em Transience as faixas possuem 5:12 e 5:53. Sorrateiro, Steven também escolheu outras músicas com duração e estilo semelhante, com a média de 5 minutos por faixa, partes instrumentais reduzidas e aceitáveis para o público “mainstream” e, principalmente, estruturas de versos/refrão fáceis de acompanhar. A cereja do bolo é a faixa Thank You, cover da canadense Alanis Morissette, retirada dos singles Cover Versions, em que Steven tocava um cover em um lado do single (em vinil) e do outro uma música inédita. A escolha não poderia ser mais adequada para o clima mais acessível do álbum, afinal, os demais covers eram Abba, Donovan, The Cure, Prince e Momus.

Apesar de estarem em sincronia em Transience, as faixas escolhidas por Steven são os momentos mais tranquilos de seus álbuns, momentos em que o ouvinte pode respirar, como exemplo da própria faixa título, que em seu álbum original, Hand. Cannot. Erase. (2015), serve de ponte entre um solo do virtuoso do guitarrista de jazz/fusion Guthrie Govan em Regret #9 e a sombria e longa viagem em Ancestral, ou Significant Other, que no álbum Insurgentes (2008) está entre No Twilight Within the Courts of the Sun, uma improvisação sombria de quase 9 minutos e Only Child, igualmente sombria e melancólica.

Não se engane com a serenidade

Para aqueles que Transience for seu primeiro contato com o trabalho do músico, a coletânea é apenas a ponta do iceberg de sua carreira, que conta com uma pequena parcela de músicas semelhantes às da coletânea, e abaixo do nível do mar, conta com uma infinidade de trabalhos em diversos níveis sombrios e complexos. Fico imaginando o susto do ouvinte desavisado, que for atraído para o álbum Grace for Drowning (2011) pelas faixas Postcard e Deform to Form a Star da coletânea, ao se deparar com faixas como Raider II, uma peça de 23 minutos de altíssima complexidade, tão alta que ao ser apresentada nos shows, Steven solicita(va) à plateia total silêncio para que os músicos pudessem manter total concentração. Para aqueles que já conhecem o iceberg do trabalho do músico, talvez Transience não seja uma boa pedida. A impressão que pode ficar é de um trabalho muito simples e superficial.

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A produção do álbum como todo o trabalho de Steven Wilson está impecável, com pelo menos 3 faixas remasterizadas e as demais minimamente encaixadas para fluírem como um todo (algo que acho que já repeti varias vezes, mas não posso deixar de citar este ponto, é um peso muito grande para uma coletânea). Transience já havia sido lançado em 2015 em vinil, apesar de Steven em entrevistas no passado ter deixado claro que não gostava de coletâneas, playlists e a forma como a música é consumida desde o advento da Internet e do mp3. O músico em seu documentário Insurgentes (2009) mostrou seu ódio pelo formato compactado mp3 descontando em iPods, que foram destruídos com marretas e lança-chamas. Entretanto, depois da sua carreira alçar voo com o álbum e turnê do Hand. Cannot. Erase., Steven passou a prestar mais atenção no seu impacto na Internet, e se aproveitar dele, investindo mais em seu canal do Youtube além de seu recente Instagram, cheio de momentos pessoais e até mesmo engraçados, uma faceta do músico que conhecido apenas os fãs que acompanham de perto sua carreira e lado pessoal. Como Steven sempre diz, suas músicas são predominantemente melancólicas pois ele joga toda a carga emocional negativa nelas, mas no geral, ele é extremamente feliz e positivo.

Além de expor mais o seu lado pessoal, Steven já colocou todo o catálogo principal de sua carreira solo no Spotify e outros veículos de streaming, apesar de ter passado anos batendo o pé contra o assunto. Em diversas entrevistas, Steven reclamava da qualidade comprimida do mp3 e do “corrompimento” da música por conta destes formatos com perda de qualidade, entretanto, esta é uma discussão que mudou, talvez até mesmo para ele, após se deparar com formatos como o FLAC ou AIFF, ou mesmo por aceitar que 99,9% das pessoas não consegue diferenciar um FLAC 24 bits 96khz de um MP3/OGG 320Kbps, mas este é um assunto polêmico, e eu não quero entrar em detalhes técnicos. Apesar da resistência, além de seu catálogo solo, a expectativa é que para 2017 Steven consiga os direitos para oficialmente disponibilizar o catálogo principal do Porcupine Tree, bem como outros de seus projetos.

Concluindo

Minha relação com a música do Steven Wilson é muito pessoal, e de longa data. Para falar sobre ele e Transience como fiz aqui tive que me conter para escrever uma resenha concisa e justa, mas confesso que já ouvi a coletânea umas vinte vezes, mesmo já conhecendo todas as músicas de cor. Garanto que só Index eu já devo ter ouvido pelo menos umas 100 vezes nos últimos 5 anos. Eu gostei muito da fluência de Transience, mas não é um álbum que eu indicaria para apresentar a carreira do músico para alguém que gosta do gênero progressivo, entretanto, com certeza é um ótimo álbum para se ouvir principalmente em conjunto com quem não costuma apreciar o gênero.

Se estivéssemos no início dos anos 2000 e não fosse tão caro importar seus álbuns do Reino Unido, tenho certeza que compraria uma pilha de cópias do disco para presentar as pessoas que gosto em ocasiões oportunas. Hoje o presente não é material, palpável, até porque a maioria das pessoas que eu conheço não tem um som com entrada de CD, então fica por aqui, uma playlist do álbum direto do Spotify. Neste ponto tenho que concordar com Steven, é uma pena que as pessoas tenham perdido esta conexão material com a música, mas ao mesmo tempo, se não fosse pela Internet, eu não teria conhecido seu trabalho há 10 anos.


Banda: Steven Wilson
Álbum: Transience
Gênero(s): Progressive Rock, Crossover Prog, Art Rock
Lançamento: 16 de Setembro de 2016
Duração: 67 minutos
Classificação do blog: 4.0/5

Faixas:

1 
Transience – Single Version
2 
Harmony Korine
3 
Postcard
4 
Significant Other
5 
Insurgentes
6 
The Pin Drop
7 
Happy Returns – Edit
8 
Deform to Form a Star – Edit
9 
Happiness III
10 
Thank You
11 
Index
12 
Hand Cannot Erase
13 
Lazarus – 2015 Recording
14 
Drive Home

 

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