Cinemateca

Esquadrão Suicida: A bagunça, o índio e Bohemian Rhapsody

Ignorando as críticas no geral, como faço de costume, fui assistir Esquadrão Suicida sem um conceito formado, somente o que pude perceber dos trailers, que após o fracasso de Batman VS Superman tiveram seu teor modificado bruscamente, mas vamos voltar aos trailers mais a frente. Minha expectativa como assíduo espectador de filmes de quadrinhos era que a DC teria aprendido com seus erros e estaria moldando o seu “Guardiões da Galáxia“: um filme que ninguém sabia o que esperar e foi um tremendo sucesso.

O irmão do Daryl do Walking Dead, Andy Dwyer do Parks, Thranduil do Hobbit, um lutador de WWE, e por ai vai... Isso sim é um elenco!

O irmão do Daryl do Walking Dead, Andy Dwyer do Parks, Thranduil do Hobbit, um lutador de WWE, e por ai vai… Isso sim é um elenco!

Sobre o artigo abaixo, algumas menções que faço só farão sentido para quem assistir o filme, porém, no todo tentei escrever algo para quem não assistiu poder evitar gastar dinheiro no cinema e guardar para assistir este depois no conforto de sua casa.

Pistoleiro, Capitão Bumerangue, Magia, Crocodilo, Katana e El Diablo são nomes totalmente desconhecidos do mundo “mainstream“, que até então só conhecia o Coringa, o Batman e a Arlequina, por conta das inúmeras histórias protagonizadas pelo trio. Para a produção do filme, assim como deve ter sido para o Guardiões da Galáxia, este fato é ouro, pois significa que você poderá moldar os personagens como bem entender e apenas uma ínfima parcela de espectadores reclamará dos detalhes que foram modificados. Além disso, como a história em quadrinhos em si não tem tanta fama como histórias famosas como “A piada mortal” ou “A morte de Superman”, a segunda utilizada para embasar o fracasso do ano (Batman vs Superman, veja aqui), a DC tinha, mais uma vez, tudo para moldar um filme como bem entendesse, mas, ao invés disso, resolveu nos insultar.

Os personagens do Esquadrão Suicida no HQ

Os personagens do Esquadrão Suicida no HQ

Veja, eu não sou um Marvel-Boy nem um DC-Hater, mas venhamos e convenhamos, os filmes da Marvel criaram um “padrão” de público alvo e qualidade que geralmente esperamos dos filmes que seguiram o primeiro “Homem de Ferro”. Personagens bem construidos, vilões com o mínimo de bom senso e motivação, histórias com algumas camadas, suficiente para agradar os adultos e a molecada. Na Marvel, se você não pode ou não quer se aprofundar nos personagens ou no roteiro, faça uma comédia interessante, que tá tudo certo. Em contrapartida, a DC vem de uma linhagem de filmes que querem ser sombrios, legado dos incríveis Batmans de Christopher Nolan. Enquanto a Marvel foi adequando o tom de seus filmes dependendo de qual arco ou qual personagem ela está focando, a DC resolveu investir no seu lado sombrio e, subitamente, respondendo às criticas, modificou o teor do “esquisito” Esquadrão Suicida para um filme mais “engraçado”, mais “leve”. Pensando neste embasamento, vamos ao ponto.

A narrativa de Esquadrão Suicida é inconsistente. O inicio do filme é uma coleção de rápidos flashbacks para apresentar os personagens de forma rala, diferente de Watchmen, que não jogou na cara do espectador uma ficha de cada personagem para poder apresentar partes relevantes de cada um ao longo do filme. Este tipo de apresentação rala é típica de filmes para adolescente, mas os filmes de quadrinhos agora são feitos para adultos também, e foi neste primeiro momento que me senti insultado. Mais ainda quando ficou claro que muitas cenas foram encaixadas para diminuir o teor “sombrio” e acrescentar comédia, de forma forçada para que todos os personagens possam ter a sua pontinha de comédia, trazendo personagens  sarcásticos, como Pistoleiro e Crocodilo, outros piadistas, como Arlequina e Capitão Bumerangue. Em muitos destes momentos, ninguém no cinema abria a boca para dar risada, uma reação esperada por mim quando a comédia é forçada na sua goela. Chega um momento ao ponto da mudança ser totalmente brusca de uma comédia, para uma ação, para uma cena melancólica. Não dá tempo de mudar a chave na cabeça para se identificar com os personagens. No inicio a narrativa é lenta e detalhada e mais uma vez, bruscamente, ela acelera a ponto de deixar o espectador perdido. Ficou claro que a edição do filme foi uma tremenda bagunça, tentando remendar a mudança repentina de teor.

Teve cenas tão ruins que ri de nervoso, não porque estava engraçado...

Teve cenas tão ruins que ri de nervoso ou porque está vergonhoso, não engraçado…

O roteiro do filme é tão ralo quanto a narrativa: o governo quer criar um esquadrão “B” para poder agir por debaixo dos panos, um dos possíveis integrantes deste grupo se volta contra o governo e quer destruir o mundo porque “todo vilão quer destruir o mundo”. Ou seja, a problemática do filme é causada pela solução proposta pela ideia inicial. Se a ideia de fazer um “esquadrão suicida” não fosse executada, o problema combatido pelo “esquadrão suicida” não existiria. E é isso. O restante do filme é uma sequência de ações e fatos, com um vilão bem mal desenvolvido. A reviravolta principal do filme não é para quem está assistindo, mas para os próprios personagens dentro do filme, então o roteiro não surpreende em momento algum. A narrativa paralela do Coringa é totalmente descartável, diferente do que parecia nos trailers, com toda a propaganda e hype em cima dele. Praticamente todas as cenas do Coringa já estão nos trailers, ou seja, a participação dele foi pequena ou cortada para caber o resto da narrativa inconsistente. Todos os dramas dos personagens podem se resumir em uma linha ou em nenhuma, como é o caso de personagens como Crocodilo e o índio cujo nome eu fui ver depois que era Amarra, ou Slipknot (WTF). O índio foi mais um dos insultos do filme. Um personagem que aparece DO NADA e só serviu para um propósito: provar que o dispositivo que poderia impedir a fuga dos integrantes do Esquadrão Suicida funciona. E acabou. É isso! Ele aparece numa cena, e na próxima ele é descartado, como um mero objeto! Não tem como ser mais ralo do que isso…

"Oi" e "Tchau"

“Oi” e “Tchau”

A atuação de nomes como Jared Leto e Will Smith não ajuda, ou pior, só soma aos problemas do filme. “Mas é um filme de quadrinhos, você não pode esperar uma atuação digna de Oscar” me disseram numa discussão no Facebook, mas sim, devemos esperar sim! Heath Ledger esteve entre nós para provar que é possível ganhar um Oscar atuando em filme de quadrinhos. O mínimo que espero em qualquer filme é uma atuação natural, como o caso de Watchmen e o universo cinematográfico Marvel.

Ótima seleção (tirando o Will Smith), igual a seleção do Brasil que levou 7 a 1 da Alemanha

Ótima seleção (tirando o Will Smith), igual a seleção do Brasil que levou 7 a 1 da Alemanha

  • Will Smith, Pistoleiro: Bom, eu não gosto do Will Smith. Mesmo como Pistoleiro, ele entregou uma performance como todas as outras recentes dele escolhidas a dedo: um homem amargurado que luta para provar seu valor e ser quiçá um anti herói. Achei até estranho o filho dele não estar no filme fazendo o papel do filho que precisa do papai. Se você pesquisar um pouco sobre a carreira do ator, vai entender o que quero dizer com “escolher a dedo”. Isolando sua performance no Esquadrão Suicida, foi OK, e nada mais.
  • Jared Leto, Coringa: A antítese de Will Smith, Jared Leto é um ator esplêndido que se transforma a cada papel e que mais uma vez se transformou para fazer seu personagem, entretanto sua performance é tão ruim quanto Eddie Redmayne em “O Destino de Jupiter”. É como pegar um diamante e banha-lo com latão, praticamente literalmente, pois colocaram uma camada prateada nos dentes do Jared que deixou o ator falando quase que como se estivesse com aquelas dentaduras de plástico de 1,99 com dentes de vampiro. O personagem mais parece um funkeiro, e é complicado viver o Coringa num mundo pós-Heath Ledger. Jared tentou, e não conseguiu.
  • Margot Robbie, Arlequina: Não tenho muito conhecimento para falar da carreira de Margot, mas sua performance em “O Lobo de Wall Street” é bem interessante, diferente das caras e bocas não naturais em Esquadrão Suicida. É difícil retratar um personagem maluco sem ficar tosco, e ela somente beirou o tosco, então eu ainda dou um certo crédito. O que não ajudou foram as falas atribuídas ao personagem e frases de efeito. Poderia ter sido melhor, mas não foi, porque se fosse, não encaixaria no todo ralo do filme.
  • Jai Courtney, Capitão Bumerangue: O ator, nascido na Austrália, conseguiu retratar um australiano de forma estereotipada e até falsa. Nem preciso falar mais.
  • Adewale Akinnuoye-Agbaje, Crocodilo: Outro ator que não tenho muito conhecimento para falar, mas que também não posso falar muito nesse filme, além do fato de que ele parece um crocodilo de teatro de escola.
  • Jay Hernandez, El Diablo: A única atuação natural do Esquadrão em si, vinda de um ator desconhecido com um currículo negro, com filmes como “O Albergue” e “Quarentena”.
  • Cara Delevingne, Magia: Assisti quase todos os filmes desta atriz e bom, a atuação dela é OK. Enquanto ela não está incorporada como Magia, o que acontece em apenas algumas cenas, a atuação dela é aceitável, mas como Magia ela parece que está sendo dublada por outra pessoa. Como Magia, ela rebola, parece que está dançando e faz uns gestos que chegam a ser caricatos. É esquisito, demais.
  • Viola Davis, Amanda Walker: Outra atuação relativamente natural, de uma atriz com um cacife enorme para o filme em que está. Gosto bastante da Viola Davis e vejo que ela sabe se adequar dependendo do contexto de cada produção que participa.
  • Joel Kinnaman, Rick Flag: Em boa parte do filme o ator de House of Cards e Robocop entregou uma performance bem executava e aceitável, exceto por duas cenas: a cena do helicóptero, na qual sua expressão e falas ficaram forçadas e na cena do bar, com um drama fraco e caricato.
  • Karen Fukuhara, Katana: Não teve muito espaço para atuar, falou japonês, fez seu papel, OK.
  • Adam Beach, o índio: Sem comentários…
  • A maioria dos personagens secundários são bem caricatos e estereotipados, exceto pela performance de David Harbour, o xerife em Stranger Things, a qual também é aceitável e natural.
  • Ben Affleck, Batman: FUCK YEAH, o melhor.

Deixando os demais aspectos técnicos do filme de lado, como fotografia, direção, edição de cor e afins (sem falar na propaganda sombria que se tornou colorida), pois no final das contas ou foram compatíveis com o restante do filme (ou seja, ruins) ou apenas aceitáveis, o último aspecto que gostaria de comentar é sobre a trilha sonora. Até mesmo a trilha sonora do filme foi inconsistente. Mesclando clássicos do passado como Creedence, AC/DC e Black Sabbath com “sucessos” modernos como Skrillex e Kanye West, a ideia provável era associar certas músicas (nome, letra, origem da banda até) com certos personagens ou eventos, entretanto, as músicas, principalmente no começo, eram usadas em trechos encavalados entre uma cena e outra, com cortes secos e mal posicionados. Mais uma vez a DC quis reciclar ideias de sucesso como em Watchmen ou Guardiões da Galáxia na Marvel, onde as músicas completam o conteúdo, porém, com um seleção musical aleatória e mal posicionada, até nisso eles conseguiram errar. E pior, pessoalmente eu repudio o uso de Bohemian Rhapsody (Queen) em qualquer que seja o contexto. Bohemian Rhapsody para mim é uma música que deve ser respeitada, e não utilizada de forma rala e ilustrativa, como foi em um dos trailers de Esquadrão Suicida e novamente no filme.

Algumas coisas precisam ser respeitadas

Algumas coisas precisam ser respeitadas

Por fim, Esquadrão Suicida foi um filme custoso de ver no cinema, uma grande vergonha alheia por aqueles que fizeram parte de sua produção. De filmes como Watchmen e The Dark Knight a Batman VS Superman e Esquadrão Suicida, a DC vem decepcionando e insultando seus espectadores, numa época em que filmes de quadrinhos se tornaram super produções que lucram rios de dinheiro. E mais uma vez, eu digo, por favor DC, aprenda com a Marvel, que vem entregando produções de satisfatória a incríveis, e só tem melhorado com o passar dos anos.

Um pensamento sobre “Esquadrão Suicida: A bagunça, o índio e Bohemian Rhapsody

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