Cinemateca/Diário de Bordo

Diário de Bordo 13: Stranger Things

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Um sucesso cheio de nostalgia ou manipulação? Não importa neste caso. Abro meu texto com uma matéria sensacionalista que li na Folha (link aqui, se não expirar) indicando que o Netflix está no auge de manipulação de público, com o sucesso “do dia para noite” de Stranger Things. Li outras matérias dizendo que a série plagiou cenas de filmes famosos como E.T. ou que o Netflix encomendou uma série que utiliza clichês dos anos 80 e referências apontadas como padrão da maioria de seus usuários, utilizando seu algoritmo de tendências, mas em primeiro lugar, vamos pensar, não é isso que TODAS as indústrias fazem desde que as análises de mercado passaram a existir?

Exagero ou estratégia? Paranoia ou nostalgia?

Há décadas indústrias de vários ramos tem coletado padrões de comportamento, com desde pesquisas de mercado até análises de padrões utilizando complexos algoritmos, data mining, Big Data e outras tecnologias, para criar produtos direcionados ao seu público alvo. No entretenimento isso não é diferente. Produtores musicais vivem em baladas analisando os “hits top” do momento para garimpar músicos e “músicos” que possam ser moldados a estas tendências, revistas em quadrinhos analisam a reação de seus fãs para dar sequência aos infinitos arcos de suas histórias. Quem diria que oito anos atrás o filme do Homem de Ferro abriria as portas para uma cadeia produtiva de filmes da Marvel Studios, um universo cinematográfico planejado para mais de 10 anos de produções? Você, mero leitor, provavelmente nem imaginava, mas dentro da Marvel ninguém simplesmente tomou uma decisão de gastar bilhões de dólares sem ter o mínimo de embasamento.

Até uns 10 anos atrás HQ era coisa de moleque e virjão

Até uns 10 anos atrás HQ era coisa de moleque e virjão

O sucesso da produções do Netflix “direcionadas aos seus usuários” tem incomodado bastante gente, e isso é normal, é do ser humano. Desde que a TV foi inventada, existem 2 tipos de obras de entretenimento: as que são direcionadas ao público, ou os famosos “fanservices”, e as que são direcionadas à arte, ou ao ego do artista. A segunda opção nem todo mundo consegue gostar ou engolir, pois muitas vezes “arte pela arte” é difícil de se compreender ou aceitar, principalmente porque vários “artistas” se aproveitam da arte pela arte para criar qualquer coisa e dizer que é arte.

Produzir conteúdo “sob medida” só é ruim quando o conteúdo é somente sob medida e nada mais. Um exemplo pessoal é Big Bang Theory, uma série cheia de referências a cultura geek, nerd ou sei lá mais como eles se intitulam, mas que depois de uns poucos episódios com conteúdo interessante na primeira temporada se tornou uma série totalmente genérica, sem profundidade, bagunçada e somente, cheia de referências. Chega a ser um insulto saber que cada ator recebe 1 milhão de dólares por uma atuação merda e um conteúdo genérico e dispensável. Você pode me dizer que isso é por conta da comédia, mas não é. Não vem ao caso eu ficar discutindo Big Bang Theory, afinal, meu post é sobre outra série: Stranger Things.

Stranger Things não é somente um amontoado de referências dos anos 80 para capturar a nossa atenção, mas sim uma série que provavelmente foi feita sob medida, mas com muito cuidado. Logo de cara, o cenário, a maquiagem, figurino, iluminação, a fotografia e até o poster e a abertura da série foram moldados para imitar e referências os anos 80 com um todo. Não é só uma série ambientada nos anos 80, mas, numa boa resolução, parece que estamos nos anos 80 e isso não é todo mundo que consegue passar, um sentimento legítimo de nostalgia.

A trilha sonora é impecável, utilizando instrumentos e sons de teclado legítimos dos anos 80. Falei de Metal Gear Solid V: The Phantom Pain em outro post no blog, um jogo ambientado na mesma época, mas que, exceto pelas músicas dos anos 80 que tocam no jogo, falhou em ambientar a trilha de forma legítima como Stranger Things. Curioso que tanto no quinto episódio de Stranger Things quanto em um trailer do Metal Gear, os produtores escolheram utilizar uma música esquecida da banda New Order, mas que tem todo o clima e ambientação dos anos 80 como trilha sonora:a canção Elegia. Seria esse mais um efeito do algoritmo do Netflix ou uma mera coincidência? Mais uma vez, não importa, pois funcionou em MGSV e funcionou em Stranger Things tão bem como.

A atuação em Stranger Things também não é meramente uma atuação, como o caso das dezenas de séries que saem mês após mês nesta nova onda de produções para televisão e streaming. Em primeiro lugar, a atuação das crianças em Stranger Things deveria ser um padrão em qualquer produção. As crianças são crianças, agem como crianças e falam como crianças. Nenhuma criança tem falas complexas ou cheias de moral forçada, porque crianças são crianças e ponto! Obviamente que o RPG de mesa, os posters de filmes e a ambientação trás um ambiente nostálgico pra quem viveu os anos 80/inicio dos anos 90, mas isso não é “manipulação”, é ambientação, e, mais uma vez, deveria ser um padrão de qualidade. Os atores mirins até mesmo fora das câmeras, souberam conquistar o público, em especial o brasileiro, mais um ponto que o Netflix acerta em direcionar seu marketing para o âmago de seu público.

#brasil #milliebobbybrown #eleven #strangerthings here's another for you guys ❤️❤️❤️

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O Netflix sabe que o brasileiro é público caloroso, e está aproveitando bem esta característica

O Netflix sabe que o brasileiro é público caloroso, e está aproveitando bem esta característica

Winona Ryder e Matthew Modine são os únicos nomes famosos da série porém são dois atores que fizeram sucesso nos anos (wait for it) 80/90, rostos familiares da época. Entretanto, isso não quer dizer que eles estão ali como mais uma das peças de xadrez desde suposto quebra-cabeça de pura “manipulação”. A atuação de ambos, em especial de Winona é convincente e imersa na realidade da série.

Winona Ryder em Edward Mãos de Tesoura (1990), esquerda, e em Stranger Things (2016)

Winona Ryder em Edward Mãos de Tesoura (1990), esquerda, e em Stranger Things (2016)

Matthew Modine em Nascido para Matar (1987), esquerda, e em Stranger Things (2016)

Matthew Modine em Nascido para Matar (1987), esquerda, e em Stranger Things (2016)

Por fim, um roteiro bem encaixado, que deixa as pontas certas soltas, é a base da obra. A história que seria somente o sumiço de um garoto é cheia de mistério e suspense, sem ser ralo e sem revelar tudo como se o público fosse estúpido, coisa que acontece em muitas séries e como foi o caso de Twin Peaks, que falei em outra matéria aqui no blog, que por conta de pressão de produtores revelou algo que não deveria (pelo menos não tão cedo) e estragou o suspense da série. O roteiro também funciona tranquilamente como um filme de 8 horas, mas se você não for como eu que assistiu os 8 episódios de uma única vez, a impressão que fica, pelo que ouvi, que é uma série que te deixa ansioso para assistir o episódio seguinte, mas sem forçar a barra como é o caso de séries como The Walking Dead que arrastam episódios de 40 minutos para deixar o clímax para o final do episódio. O final é ótimo, aceitável e deixa mistérios pairando no ar.

Esperar um ano por um clímax mal colocado é uma grande merda

Esperar um ano por um clímax mal colocado é uma grande merda

Pessoalmente a série preencheu o vazio que os filmes de 2016 tem deixado. Rapidamente, não posso dizer que assisti 10 filmes lançados em 2016 que me agradaram, sendo que parte deles são produções Marvel/DC. Me identifiquei com vários pontos de Stranger Things (principalmente a trilha sonora), mas o fator nostalgia foi apenas um bônus para mim. A qualidade da série está nos pontos que elenquei, boa direção, atuação e roteiro, além de tudo o que falei. Como um fã de histórias de mistério, investigação e suspense, foi uma ótima experiência. O toque sci-fi da série também me agradou, da mesma forma que o meu filme top 1º Semestre/2016, Midnight Special, conseguiu. Aproveitando, uma boa pedida pra quem gostou de Stranger Things, eu acho.

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O fato da Netflix já ter anunciado uma segunda temporada me incomoda. Este sentimento de um filme de 8 horas que termina deixando as pontas certas soltas é o melhor que um final pode te oferecer. Saber que a segunda temporada será uma continuação do ponto que parou e seguirá explicando pontos “mitológicos” da série estraga este mistério, porém, posso estar errado e, mais uma vez, o uso destes algoritmos do Netflix e o expertise dos envolvidos pode consertar este erro, na maioria das vezes americano, de prolongar algo de sucesso e estragá-lo.

Não sei qual é a sua conclusão sobre esta “manipulação” e “plágio” que está correndo por ai após ler esta matéria, mas se você está em 2016 e acha que não é manipulado pelo menos 50% do seu tempo, acorde. Mesmo em 1950 as pessoas já eram manipuladas mas hoje, com as mídias sociais e a internet, a propagação e acesso à informação é tão instantâneo e aberto que todo mundo sabe ou deveria saber que manipulação é normal e faz parte do ser humano desde criança. Uma criança que chora por um brinquedo mas logo para quando o ganha está manipulando os pais em prol do seu desejo. É primal, está no âmago do ser humano. E na boa, com tanta merda que sai sem “manipulação” e com tanta mais que sai com manipulação, eu sou totalmente a favor do bom uso deste tipo de recurso, desde que aliado a uma boa produção, direção, atuação e os demais elementos de um filme/série.

Um abraço e até mais!

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Um pensamento sobre “Diário de Bordo 13: Stranger Things

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