Cinemateca

O Experimento – Núcleo Experimental de Cinema do MIS

Quando se trata de produções nacionais de cinema, meu conhecimento é bem limitado e minhas experiências em geral, ruins. Ao longo de décadas, bombardeado por comédias clichês, filmes de bandido e produções de baixa qualidade, formei um conceito sobre o cinema nacional difícil de ser quebrado. E olha, não foi por falta de esforço. Apesar de limitado, meu catálogo pessoal conta com aproximadamente 100 obras nacionais escolhidas a dedo, coletadas ao longo de dez anos, além dos que assisti na televisão ou no cinema. Foram poucos os que conseguiram chamar a minha atenção. De verdade, somente um, Menos que Nada. Não vou me aprofundar sobre este filme, mas os porquês são importantes para falar do assunto desta matéria.

Dica de filme: Menos que Nada

Dica de filme: Menos que Nada

Menos que Nada se tornou um de meus filmes favoritos, e o melhor nacional visto até então por conta de três pontos:

  • O filme foge de todos os estereótipos batidos do que se é retratado no cinema brasileiro. É uma história ambientada no Brasil, com a cara do Brasil mas sem ter de apelar para os cenários e clichês que “representam o Brasil”
  • Não é uma comédia. Eu gosto de comédia, mas o cinema brasileiro está tão saturado de comédias hoje quanto de pornochanchadas na década de 70.
  • A produção do filme no geral é de qualidade. Este é um aspecto mais difícil de avaliar, mas como gosto muito de cinema, acabo pesquisando e me aprofundando nos aspectos técnicos e, ao assistir qualquer obra, me atento a tudo. Direção, fotografia, colorização, atuação natural, trilha sonora, entre outros aspectos, são pontos que pesam. Informalmente é aquela impressão que você pode ter da diferença de ver um filme com um orçamento enorme de Hollywood com um filme mais caseiro. E no caso de Menos que Nada, esta diferença é mínima, pois a equipe soube usar o melhor do que possuía para criar algo verossímil.

Este final de semana, através de uma indicação do site Catraca Livre, tive a oportunidade de assistir um curta produzido no MIS (Museu da Imagem e do Som) em São Paulo, literalmente e figurativamente. O curta O Experimento é o resultado do primeiro Núcleo Experimental de Cinema do MIS, cujo edital reuniu mais de 1.000 pessoas para selecionar praticamente 1% para um desafio um tanto quanto inusitado: produzir um curta com a temática de Zumbis e filmado utilizando as dependências do próprio MIS, em menos de 3 meses. Para quem conhece um pouquinho de cinema, deve imaginar o trabalho reunir uma galera desconhecida para produzir do zero algo assim, tão rápido. Levando em conta meu conceito de cinema brasileiro, e a qualidade dos efeitos especiais mal feitos que já tivemos ao longo de anos de porcarias, a minha primeira reação seria não assistir.

A temática Zumbi está em alta após o boom da série The Walking Dead, portanto se você fazer uma rápida pesquisa verá que muito mais do que 100 filmes, inclusive (péssimas) produções de alto orçamento, e mais de 10 séries utilizaram esta temática nos últimos anos. Pessoalmente assisti dezenas destes “derivados” do tema, e mais uma vez, foram poucos que me chamaram a atenção.  No final das contas, todos contaram a mesma história, a mesma problemática, ou tentaram inovar demais e acabaram deixando o todo muito artificial. Mas lá fui eu, assistir um curta produzido no Brasil e de Zumbis.

Com um trailer interessante e a entrada franca, o resultado foi muito melhor do que os atrativos que me levaram até o curta. Os três pontos que citei sobre Menos que Nada se repetiram em O Experimento, isso que estamos falando de uma produção independente, com uma equipe nova, formada por pessoas que não se conheciam antes, de diversas idades e backgrounds. O curta conta a história de Bárbara e seu namorado Jorge, que estão perdidos no que parece ser mais um apocalipse zumbi. Entretanto, a problemática se torna interessante quando é revelado que Bárbara é deficiente visual e, mesmo guiada pelo namorado, acabou sendo mordida e consequentemente infectada. A localização da história não é importante e nem revelada, poderia ter acontecido em qualquer lugar. A ambientação no Brasil acontece de forma sutil, com nomes, gírias, e com uma única cena que mostra a cidade vista do alto, mas sem dar nome ao local. Não há uso de nenhum “estereótipo” brasileiro. São pessoas comuns, situações adversas, que nos leva ao segundo ponto.

Obviamente que pelo trailer nota-se claramente que não é um filme de comédia. É um roteiro sério, que trata de uma situação tensa e triste ao mesmo tempo: o drama do namorado que tenta fazer o que está ao seu alcance para salvar a amada. A verossimilhança do roteiro e da ação/reação dos personagens foge inclusive da síndrome do heroísmo de muitos filmes de zumbi americanos. A “muleta de roteiro” do herói frenético mas que acaba morto não acontece neste curta. O curta, apesar da temática de Zumbi puxa mais para o drama do que para o terror ou qualquer outro gênero que tenha se aproveitado da temática. Também não é um drama que humaniza o Zumbi, outro erro na minha opinião de algumas produções. Não é o caso dO Experimento.

Poster do filme O Experimento, fonte: https://www.facebook.com/GrupodeCinemaAp43

Poster do filme O Experimento, fonte: https://www.facebook.com/GrupodeCinemaAp43

Por fim, a produção do curta, mesmo com um prazo muito pequeno, foi executada com maestria. Os atores, parte do grupo de pesquisa em cinema AP43, foram preparados e entregaram uma performance mais do que satisfatória, com destaque para o protagonista Jorge, interpretado por Philip Lavra, cuja performance foi natural e digna de empatia. Os zumbis não foram interpretados de forma forçada e me soaram “factíveis”, principalmente a protagonista Bárbara, interpretada por Juliana Lourenção, que teve mais tempo na tela. A direção foi bem executada, a fotografia excelente, pensando nas limitações de composição oferecidas pelo espaço do MIS, a maquiagem bem feita, a colorização, item de pós-produção porcamente executado pelos estúdios brasileiros, estava digna de uma produção de grande porte, enfim, a produção em si convergiu para um nível de qualidade acima do esperado para uma equipe independente e até então desconhecida entre si.

Por fim, espero que esta equipe tenha a oportunidade de elevar esta experiência para um outro nível, quem sabe melhor aproveitando a Lei Rouanet do que as muitas tranqueiras financiadas por esta lei de incentivo a cultura. Acredito que a ideia tem potencial para expansão, como por exemplo, criar outros núcleos de personagens (vários curtas que compõe um longa) utilizando outras problemáticas criativas de drama ambientadas nesta realidade zumbificada, ao exemplo de Relatos Salvajes, filme argentino que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015, que conta com 6 curtas com a temática “vingança” em situações extremas.

Dica de filme: Relatos Salvajes

Dica de filme: Relatos Salvajes

Por hora, (28/07/2016) o filme somente pode ser assistido por quem compareceu em uma das 4 sessões abertas ao público no próprio MIS, porém, se este for disponibilizado em algum local, posteriormente se lembrar coloco por aqui, ou se souber, avise aqui nos comentários. Um abraço e até a próxima.

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