Cinemateca/Diário de Bordo

Diário de Bordo 11 – Twin Peaks e David Lynch

Parte da minha ausência de conteúdos não agendados aqui no blog, como mencionei no Diário de Bordo 9, não vem somente por conta de falta de inspiração mas também pela busca por ela. No meu caso, a inspiração pode vir de muitos lugares: músicas, filmes, livros, séries, entre outras facetas da arte de contar histórias. De uns 7 anos para cá, as séries se tornaram um ponto fixo desta busca por novas ideias, tanto que, conforme mencionei no meu último post, 768 horas da minha vida aproximadamente foram usadas neste quesito.

Não é sempre que eu termino uma série e fico extasiado com seu resultado. Muitas vezes as séries buscam atender o que o público quer ver, e não as possibilidades que poderiam ser exploradas. Isso faz com que séries de longa duração se percam em roteiros mal escritos ou simplesmente planos demais. Poderia comentar série a série que já assisti do começo ao fim, mas o post de hoje é dedicado brevemente a última série que assisti, a qual já estava há bastante tempo na minha agenda: Twin Peaks, mas antes de falar da série em si, a primeira coisa que chama atenção, principalmente dos amantes do cinema mais obscuro, é o nome do mestre David Lynch.

David Lynch, ou o cara com o cabelo mais estiloso da face da Terra

David Lynch, ou o cara com o cabelo mais estiloso da face da Terra

Se você gosta de filmes com “começo, meio e fim” de fácil conexão, ou não costuma gostar quando a história é mais subjetiva do que objetiva, nem passe perto das obras de Lynch. Caracterizados por filmes sem explicações objetivas, cheios de simbolismo, surrealismo extremo, personagens distorcidos, sonhos malucos e mundos multifacetados, como um cara desses conseguiu uma série de televisão de sucesso em uma emissora grande dos EUA, no caso a ABC?

Twin Peaks foi criada por David Lynch e Mark Frost em 1990, e foi um estouro. Na época foi a série mais assistida da televisão americana. A série fugiu de formulas e aplicou o estilo sombrio de Lynch ao longo de 8 episódios, transformando a investigação de um assassinato em uma peça de um quebra-cabeça da luta oculta entre o bem e o mal em seu mais puro estado. Listado como criador, a série é atribuída como algo feito por Lynch, mas ao longo dos episódios, e principalmente com o decorrer da segunda temporada, que o dedo da televisão (e de quem está pagando) falou mais alto e o declínio da série foi certeiro.

Lynch escreveu apenas 3 episódios: o piloto da série (primeiro episódio), e os dois seguintes. Seu nome também está listado no argumento do primeiro episódio da 2ª temporada e ele dirigiu 7 episódios dos 28: Piloto, 1.3, 2.1, 2.2, 2.7 e o último, 2.22. Na primeira temporada, a diferença não é tão notável no departamento de roteiro, uma vez que os oito episódios seguem a estrutura usual de Lynch, porém a diferença na direção é evidente para os amantes do mestre. Mesmo assim, a ausência do toque visual constante de Lynch não atrapalha e a primeira temporada segue surpreendente.

Twin Peaks - Fire Walk With Me (1992) | Pers: Sheryl Lee, Kyle Maclachlan, David Lynch, Kyle Maclachlan | Dir: David Lynch | Ref: TWI023AA | Photo Credit: [ The Kobal Collection / Lynch-Frost/Ciby 2000 ] | Editorial use only related to cinema, television and personalities. Not for cover use, advertising or fictional works without specific prior agreement

Twin Peaks – Fire Walk With Me (1992) | Pers: Sheryl Lee, Kyle Maclachlan, David Lynch, Kyle Maclachlan | Dir: David Lynch | Ref: TWI023AA | Photo Credit: [ The Kobal Collection / Lynch-Frost/Ciby 2000 ] | Editorial use only related to cinema, television and personalities. Not for cover use, advertising or fictional works without specific prior agreement

Até o 7º episódio da 2ª temporada, tudo corria bem, até que por pressão do canal, o assassinato de Laura Palmer, o principal ponto da camada “terrena” da série, é resolvido na sequência. Daí em diante a série começou a se perder tentando resgatar outros elementos da trama, mas sem o assassinato de Laura Palmer, o público em geral começou a perder o interesse, levando ao cancelamento. Em entrevistas, Lynch mencionou que sua intenção era jamais resolver este conflito, e sim deixar símbolos e mensagens para que os espectadores pudessem especular, como acontece na maioria de seus filmes.

Logo que a série acabou, em 1992 Lynch dirigiu Twin Peaks: Fire Walk With Me (Os últimos de Laura Palmer aqui no Brasil) que para o público em geral deveria emendar as pontas soltas da série e mostrar o que não foi mostrado na televisão. Teoricamente, mas estamos falando de um filme dirigido e escrito por Lynch. O filme mostra cenas do primeiro assassinato executado pelo mesmo assassino de Laura Palmer, os últimos dias de Laura Palmer e mais algumas coisas extras, porém, após editado para a duração de 2 horas das mais de 5 filmadas, o filme foi vaiado em Cannes, por seu conteúdo obscuro e confuso, e este foi o fim de Twin Peaks, naquela época. Vinte e dois anos depois Twin Peaks: The Missing Pieces coletou mais 1h30 de cenas deletadas de Fire Walk With Me, com mais revelações, mas mais pontos para embaralhar a mente de quem espera uma explicação “na cara”.

twin-peaks-fire-walk-with-me

Mark Frost, o outro homem de Twin Peaks, não fez nada de muito bom depois da série. Ele e Lynch dirigiram uma série chamada On The Air, a qual não tenho uma opinião formada, mas fora isso o nome de Mark só aparece em algo notável 10 anos depois, com o roteiro dos dois filmes do Quarteto Fantástico. Desanimador…

A carreira de Lynch prosseguiu com mais 1 indicação ao Oscar, somadas às outras 3 que ele já possuía, com filmes cada vez mais obscuros, chegando ao seu ápice em 2006 com seu último filme, Inland Empire (Império dos Sonhos), o filme mais complicado que já assisti em toda vida, e olha que eu já estou com mais de 1500 no currículo pessoal.

Inland Empire, ou WTF Empire

Inland Empire, ou WTF Empire

Tentei assistir Twin Peaks tentando ignorar o meu conceito já formado sobre Lynch, afinal, naquela época filmes como o citado acima e Mulholland Dr. (Cidade dos Sonhos) ainda não existiam, portanto o público não tinha um conceito formado da carreira do mestre. Alguns elementos da série realmente são confusos se você não prestar bastante atenção nos símbolos. A primeira temporada foi muito boa, não tenho o que reclamar. Já na segunda não tive a mesma opinião do público da época, apesar de ter chegado a uma mesma conclusão.

A resolução do assassinato de Laura Palmer para mim não foi algo que me deixou incomodado como incomodou ao Lynch, pois existem conflitos acontecendo por trás deste mero assassinato que são maiores e mais interessantes do que este principal objeto da série. O que me incomodou mesmo foi o fato de que muitos episódios da segunda temporada são apenas factuais, ou seja, eles não possuem a parte subjetiva de Lynch, os sonhos, as ideias malucas, funcionando apenas como episódios intermediários para ligar pontos, explicar as relações e os eventos, as vezes até demais.

O último episódio foi surpreendente ao nível Lynch, com uma última cena digna de arrancar-me um grito de surpresa, e os filmes complementaram ainda mais a experiência obscura sobre a luta entre o bem e o mal que ocorre no pano de fundo vermelho vivo da obra. A série acabou, teve um final sombrio, o que incomodou muitos e até mesmo gerou uma legião de seguidores que procuram até hoje pelo que aconteceu com personagens como Dale Cooper ou Annie, uma busca que pode estar prestes a acabar, ou não.

The owls are not what they seem

The owls are not what they seem

Filmada de Setembro de 2015 a Abril de 2016, dirigida e escrita em sua totalidade por David Lynch, a série retornará em 2017 com sua terceira temporada, aparentemente pelo canal Showtime. Para a minha felicidade e a de muitos, a série foi filmada a partir de um único script que foi dividido em episódios, o que para mim é uma prova indubitável de que esta será a melhor temporada da série. Outras séries como a primeira temporada de True Detective foram executadas desta forma e tiveram grande sucesso e meu apreço. David Lynch, Mark Frost e quase todos os atores da série original retornarão. Vários atores como BOB faleceram ao longo destes 25 anos, o que é uma pena. O tempo de 25 anos é um tanto curioso, pois há uma menção na própria série, nos sonhos entre Dale Cooper e Laura Palmer sobre a passagem de tempo de 25 anos, o que é ainda mais intrigante.

twin-peaks-25-anos

Como curiosidade, Lynch deve retornar até mesmo como ator. O criador da série apareceu originalmente como o personagem Gordon Cole, chefe da divisão do FBI de Dale Cooper e já está listado até mesmo como editor e letrista de algumas das canções que devem aparecer durante esta nova temporada. Agora só me resta aguardar, enquanto fico com este teaser da temporada.

 

Concluindo, Twin Peaks é uma série que eu não posso recomendar sem conhecer profundamente a mente da pessoa para qual estou indicando. Na minha humilde opinião, é uma série para poucos, malucos como eu. Por este motivo, acabei escrevendo esta pequena resenha direto no Diário de Bordo. Se, por fim, a série me inspirou, pode ter certeza!

Um abraço e até mais!

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