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Os trailers de Hideo Kojima e MGSV – Música, fotografia, direção e expectativa

Não consegui pensar num título apropriado para expressar o tema desta  matéria, então resolvi elencar algumas palavras que representam este mito, Hideo Kojima. Você pode não gostar de jogos de espionagem tática, ou mesmo de jogos no geral, mas não há como negar a beleza especial dos trailers desenvolvidos para seus jogos, ou da qualidade cinematográfica do que ele criou até hoje. Desde sua grande pérola, Metal Gear Solid, para o primeiro Playstation, já havia uma preocupação de mostrar que os jogos não são apenas entretenimento e sim uma forma de arte, uma forma de contar histórias adicionando o elemento interativo e aproveitando o espaço que os jogos tem para criar tramas enormes e complexas, mas não apenas para serem apenas enormes e complexas, mas pela necessidade de um espaço deste calibre para ambientar e desenvolver suas histórias.

Para mim, Kojima é um gênio na arte de contar histórias, um gênio que foi basicamente sabotado em sua última obra prima, Metal Gear Solid V: Phantom Pain, um jogo que não só se resume este post, pois tem todos os elementos primordiais das criações de Kojima, mas também um sucesso gigantesco de vendas mesmo com seus defeitos por conta da ambição da Konami. Como mencionei, este vai ser um post bem curto, pois as imagens falarão muito mais do que eu posso me expressar.

 

2012 – The Phantom Pain: Mistério

“V has come to”

Muito antes de se saber que seria o próximo jogo de Hideo Kojima, este trailer foi divulgado como um novo jogo do suposto Moby Dick Studios, um estúdio sueco desconhecido. Como em todos os trailers de Kojima, a trilha sonora é sempre impecável, e neste caso, juntamente com a seleção perfeita de imagens, tudo indicava um jogo de terror (algo que o Kojima tem indicado há anos que deseja fazer, com foi o caso do finado Silent Hills PT). O mais incrível é que em nenhum momento são mostrados menus de jogo, itens de jogabilidade aparente, somente cenas cinematograficamente bem colocadas, mensagens dúbias, como no trailer de um filme.

A voz, ainda não anunciada, pertencia a Keifer Sutherland (vide Jack Bauer, 24 Horas), que na época não era o dublador do personagem ícone da série, Snake (neste caso, Venom Snake). Kojima criou até um pseudônimo, Joakim N. Mogren, com direito a um twitter e tudo mais. Logo a internet estava cheia de teorias, sobre o anagrama de Joakim para Kojima, o logo oculto de um Metal Gear Solid V por trás do nome The Phantom Pain. Então, com o primeiro trailer, Kojima começou um mistério por trás do que seria seu novo jogo, sem sequer revelar que era um jogo seu. No ano seguinte, as revelações foram feitas.

 

2013 – Metal Gear Solid V: The Phantom Pain: Expectativa

“… It’s been… Nine years…”

Eis então que em 2013, ao som de Garbage – Not your kind of people e com apenas alguns segundos de falas (no ínicio e no final), o trailer do novo Metal Gear foi revelado.

Rapidamente resumindo e ambientando a história para quem não conhece, esta parte da história de Metal Gear Solid, que começou no jogo número 3 – Snake Eater, conta sobre a jornada de Big Boss, um espião do governo americano absurdamente habilidoso que acabou sendo jogado numa batalha de princípios, matando sua própria mestra, “mãe” e amada, e decidiu seguir seu próprio caminho de criar um exército sem pátria e sem fronteiras. Big Boss juntou alguns companheiros e passando por Portable Ops, chegando no jogo Metal Gear Solid – Peace Walker, ele cria uma entidade chamada Militaires Sans Frontieres, um exército de mercenários a serviço de quem procurar seus serviços, e acaba se deparando com uma trama que envolvia um antigo companheiro e também parceiro de sua mestra, um homem chamado Zero. Ambos tiveram a mesma mestra, porém seguiram interpretações diferentes do que ela achava ser o ideal da sociedade.

Metal Gear Solid V: The Phantom Pain - Militaires Sans Frontieres

Dando continuidade aos eventos de Metal Gear Solid – Peace Walker, já são mostrados personagens íconicos como Big Boss e Miller, criando a expectativa do que seria a continuação da história, porém mostrando imagens da base e do exército construido com muito suor e mortes sendo destruído. As cenas são intercaladas com outras do trailer anterior, criando uma conexão com imagens mais nítidas, porém sem explicar o que está acontecendo. XOF vs FOX, um homem misterioso, personagens conhecidos em situações novas e morte são elementos que apenas elevam as perguntas ao invés de responde-las.

Metal Gear Solid V: The Phantom Pain - FOX VS-XOF

A escolha da música não foi simplesmente para criar um ambiente de contraste entre a destruição massiva exibida com uma sonoridade melancólica e calma, mas a letra da música é o mais importante de tudo, o que vamos falar somente no final. Pouquíssimas cenas de jogabilidade são exibidas, porém quase que imperceptíveis, devido a qualidade cinematográfica de Kojima e como elas foram mescladas com as demais, num trailer de quase 6 minutos que deixa um gosto amargo porém aguardado na boca.

Por fim, algumas revelações superficiais, incluindo o possível novo exército de Big Boss: Diamond Dogs (uma das várias referências do jogo ao mestre David Bowie). Mas o que realmente aconteceu com o anterior? Porque inimigos e aliados parecem trabalhar juntos? Que merda é essa baleia voadora?

Metal Gear Solid V: The Phantom Pain - Diamond Dogs

2014 – Metal Gear Solid V: Ground Zeroes e Phantom Pain: Dúvidas

“We are Diamond Dogs.”

Entre o trailer anterior e este, foi revelado que o jogo Metal Gear Solid V seria dividido em duas partes: um prólogo que continuava logo após o jogo anterior, Peace Walker, chamado Ground Zeroes, que foi lançado em 2014 como uma prévia do que estava por vir em sentido de jogabilidade, além de revelações da história, e o jogo The Phantom Pain propriamente dito, que se passaria 9 anos após Ground Zeroes. Metade das cenas do trailer anterior ficavam em Ground Zeroes, levantando mais dúvidas sobre o que estava por vir.

Com a trilha sonora de Mike Oldfield – Nuclear que revelava mais do que imaginávamos, o novo trailer de Phantom Pain trouxe cenas inéditas, mostrando um lado negro do personagem Big Boss e sua sede de vingança. O suposto chifre em sua testa e as cenas sangrentas revelavam apenas que o personagem parecia estar disposto a tudo, sem piedade. Mais uma vez, morte, fogo, Diamond Dogs, que finalmente ficou um pouco mais claro do que se tratava.

Metal Gear Solid V: The Phantom Pain - Demon Snake

O trailer mais parece um clipe músical, pois as cenas mais se encaixam com a música do que revelam do jogo. Novos companheiros, velhos conhecidos, uma relação conturbada e confusa de personagens que eram aliados sendo torturados e inimigos supostamente ajudando deixou todo mundo na dúvida. Kojima deu algumas pistas de onde estaria ambientada a história, bem como o que seria a base dos Diamond Dogs. Por fim, o vislumbre da peca chave da história, a arma nuclear bípede Metal Gear. Também é importante mencionar que o nome Venom Snake fica em evidência, como um novo codinome de Big Boss.

Mais uma vez, as dúvidas geraram expectativa, mistério, especulações que se acumularam em teorias que massageavam a cabeça daqueles que aguardavam já há 3 anos por alguns poucos momentos de falar e somente cinemáticas.

2015 – O verdadeiro The Phantom Pain: A obra prima

“Sans lingua franca, the world will be torn asunder, and then, it shall be free.”

Alguns meses antes do lançamento, o trailer final de Kojima foi lançado, mostrando seu bom gosto com umas das poucas músicas instrumentais da banda New Order – Elegia. Desta vez, Kojima faz o oposto dos outros trailers, usando a voz de vários personagens para narrar alguns pontos da trama, como a história de Skull Face, o suposto vilão da história, ou uma das temáticas da história: linguistica. Rostos não eram associados as vozes, algumas vezes criando ideias dúbias, como um paralelo entre a história de Skull Face e uma caminhada de Big Boss. Uma citação é feita a uma música tema do jogo, The Man Who Sold The World, do finado mestre David Bowie, que também é chave para o entendimento das dicas que Kojima deu sobre a trama.

Cenas de Ground Zeroes e Phantom Pain são mescladas, criando uma sequência mais lógica para a história, para então mostrar mais novos personagens, mais cenas de relação conturbada entre eles. A voz britanica de Zero, para os que prestaram atenção em Snake Eater, personagens do Peace Walker e a cena final, fazendo menção ao projeto Les Enfant Terribles, tema principal dos Metal Gears que precederam na linha do tempo a linhagem de Big Boss, une a trama toda do começo ao fim, formando um trailer que na minha opinião, é uma obra prima sem tamanho.

Pessoalmente este é o melhor trailer de filme ou jogo que eu já assisti em minha vida, e confesso que tenho o audio dele como se fosse uma música, pois nada poderia ter sido uma letra melhor para a música Elegia do que a narração deste trailer.

Importante mencionar também que somente neste trailer foi revelado um nome muito importante para a obra em si que é Metal Gear Solid V: a trilha sonora produzida por Harry Gregson-Williams, um nome nem tão conhecido como John Williams ou Hans Zimmer, mas responsável por trilhas sonoras de filmes como a trilogia Narnia, Perdido em Marte e Inimigo do Estado. Harry G.W. já havia participado de trilhas sonoras de outros jogos da série, mas pela primeira vez como produtor principal, ao lado do composior Ludvig Forsell.

A partir deste trailer, vieram a tona os problemas com a longa produção do jogo, o enfraquecimento e término do relacionamento entre a produtora Konami e Hideo Kojima e dai pra frente o sonho começou a se desfazer. Até pouco tempo antes do lançamento do jogo, nada sobre esta briga estava claro, bem como o fato de que o jogo foi lançado INCOMPLETO e que além disso Ground Zeroes e Phantom Pain seriam um único jogo, porém devido ao tempo e a falta de lucro da produtora, o jogo foi dividido para tentar retornar alguma verba para a produtora, que no fim das contas, esperou 6 anos para o lançamento de um novo Metal Gear, sua franquia mais lucrativa.

 

2015 – O último trailer de Kojima: Emoção

Kojima veio com tudo neste trailer para capturar a emoção de fazer qualquer fã da série ficar a beira dos prantos, mostrando cenas na ordem de lançamento de cada Metal Gear, exibindo a evolução gráfica e relembrando os Metal Gears que foram revelados em cada jogo da série principal. Cenas como a morte de The Boss, o sofrimento de Old Snake e Otacom, a vida de Big Boss, foram especialmente selecionadas para este trailer especial, com a trilha sonora de um tema composto para o jogo, até então não revelado, Quiet Theme, cantado pela própria atriz que faz a personagem de mesmo nome.

Uma cena bizarra mescla Big Boss e Skull Face, a última dúvida deixada por Kojima, jogou tudo o que sabíamos para o alto, confundindo o significado dos trailers anteriores. Por fim, revelou a verdadeira face do Metal Gear, a arma nuclear bipede Sahelantrophos, e seu poder absurdo.

Metal Gear Solid V: The Phantom Pain - WTF Demon Snake

Kojima saiu da Konami, o jogo foi lançado, foi um sucesso monstruoso de vendas, não foi o Game do Ano por pura culpa da produtora de ter podado o desenvolvimento do jogo, mas ainda sim, foi uma ótima experiência ter gastado quase 150 horas para fazer 100% do jogo e ainda sim sentir vontade de continuar. Enfim, voltando aos trailers, depois do lançamento do jogo ficou claro que haviam mensagens subliminares nas letras das músicas escolhidas por Kojima para compor seus trailers, o que mais uma vez, afirma o status de gênio que mencionei no começo do post.

 

ALERTA DE SPOILER – se você não jogou o jogo e pretende joga-lo, pule este pedaço – ALERTA DE SPOILER

Se você jogou Metal Gear Solid V – The Phantom Pain até o fim, sabe que Venom Snake e Big Boss não são a mesma pessoa. Somente refrescando a memória, Big Boss se aproveitou do acidente que ocorreu em Ground Zeroes para criar um “fantasma” de si, Venom Snake, enquanto ele agia por debaixo dos panos. Este fato é apontado diversas vezes nas letras das músicas escolhidas por Kojima nos trailers:

2013 – Garbage – Not Your Kind of People

Nós não somos o seu tipo de gente
Você parece ser meio falso
Tudo é uma mentira
Nós não somos o seu tipo de gente
Alguma coisa na sua maquiagem
Parece não estar certa

Nós não somos o seu tipo de gente
Não queremos ser iguais a você nunca em nossas vidas
Nós não somos o seu tipo de gente
Nós ficamos irritados quando você começa a falar
Não há nada além de ruído branco

Vagando por aí
Tentando se encaixar
E querendo ser amado
Não vai demorar muito
Até alguém te derrubar
Quando você construiu uma aparência
Construiu um exército na sua mente
Você não consegue ficar calmo
E nem gosta de andar no meio da multidão
Eles não entendem

Você apareceu aqui sem avisar enquanto eu dormia
Você veio pra ver toda a comoção
E quando eu acordei comecei a rir
A culpa foi minha por não acreditar

Nós não somos o seu tipo de gente
Falamos uma linguagem diferente
Nós vemos através de suas mentiras
Nós não somos o seu tipo de gente
Não seremos tachados de demônios
Criaturas que você despreza

Nós somos pessoas extraordinárias

São várias as referências sobre a dualidade de Big Boss e Venom Snake, aparência, negação, mentiras, principalmente relacionando o sentimento da música com a cena em que Venom Snake olha no espelho e se vê como um demônio. Neste momento fica claro que Venom Snake, que na verdade era o médico que acompanhava o Big Boss no acidente em Ground Zeroes, não aceita sua aparência atual, nem mesmo o demônio que se tornou. Importante notar que como um bônus há até uma mencão a linguística, também tema apresentado no jogo.

2014 – Mike Oldfield – Nuclear

De pé sobre a borda da cratera
Como os profetas disseram uma vez
E as cinzas estão todas frias agora
Não há mais balas e as brasas estão mortas
Sussurros no ar contam as histórias
Dos irmãos que se foram
Desolação
Devastação
Que bagunça fizemos
Quando tudo deu errado

Assistindo a partir da borda do circo
Para que os jogos comecem
Gladiadores sacam suas espadas
Formam as suas fileiras para o armagedon

Eu sou nuclear
Eu sou selvagem
Estou quebrando por dentro
Um coração de vidro quebrado
Corrompido
Lá no fundo
A criança abandonada

De pé na beira do submundo
Olhando para o abismo e eu estou esperando por um milagre
Para sair, para escapar de tudo isso
Sussurros no ar
Contam a história de uma vida que se foi
Desolação
Devastação
Que bagunça que fizemos
Quando tudo deu errado

Eu sou nuclear
Eu sou selvagem
Estou quebrando por dentro
Um coração de vidro quebrado
Corrompido
Lá no fundo
A criança abandonanda
Lá no fundo, a criança abandonada!

A letra inteira é cheia de referências inclusive a mais de um personagem, como a alegoria “a criança abandonada” podendo se referência ao personagem Eli ou ao próprio médico como uma “criança abandonada” de Big Boss, corrompido, quebrado e selvagem. O título da música também remete a um tema de dualidade entre o armamento nuclear literal da série como o elemento figurado da personalidade de Venom Snake, além de alegorias que podem ser cruzadas com termos como armagedon, gladiadores, cinzas e brasas, todos presentes de alguma forma pelo jogo.

 

2015 – David Bowie – The man who sold the world

Nós passamos pelo degrau
Falamos sobre o que foi e quando
Embora eu não estivesse lá
Ele disse que eu era seu amigo
O que veio como uma surpresa
Eu falei direto nos olhos dele: “Eu pensei que você tivesse morrido sozinho
Há um longo, longo tempo atrás”

Oh, não, eu não
Eu nunca perdi o controle
Você está cara à cara
Com o homem que vendeu o mundo

Eu ri e apertei sua mão
E fiz meu caminho de volta para casa
Eu procurei por forma e terra
Durante anos e anos eu perambulei
Eu fitei com um olhar fixo à todos os milhões aqui
Nós deveríamos ter morrido sozinhos
Há um longo, longo tempo atrás

Quem sabe? Eu não
Nós nunca perdemos o controle
Você está cara a cara
Com o homem que vendeu o mundo

Apesar de não ser propriamente tocada no trailer, a música é citada tanto na fita cassete que aparece na cena em que Venom Snake olha no espelho, como na abertura do jogo e também título do último capítulo da história principal do jogo. Mais uma vez a escolha de Kojima foi feita milimetricamente calculada, com uma letra curta, que denota pode ser atribuída parte ao Venon Snake (Eu pensei que você tivesse morrido sozinho/Há um longo, longo tempo atrás) quanto para Big Boss, em vários trechos que marquei em negrito, inclusive literais da história do próprio personagem.

ALERTA DE SPOILER – pronto, acabou o spoiler – ALERTA DE SPOILER

Não sei dizer se Kojima, como eu, utilizou as letras das músicas como inspiração para criar a história, mas ficou muito claro pra mim que há uma referência em ambos os sentidos entre a história e as músicas. Nada exibido por Kojima nos trailers foi apenas por perfumaria, como acontece em trailers de filmes ou mesmo de jogos, que escolhem músicas famosas apenas como uma mera trilha sonora desconexa da mensagem da obra em si, ou mesmo músicas com temas bem genéricos, como Everybody Wants to Rule the World do Tears for Fears, que coube e foi usada em um monte de trailers.

Espero que tenha deixado meu ponto sobre a genialidade de Kojima e um convite a aqueles que possam ter a oportunidade de jogar esta obra prima que é Metal Gear Solid V: The Phantom Pain.

Um abraço e até a próxima!

Bonus: Death Stranding

Para começar 2016 com o pé direito, eis o magnifico trailer do novo jogo de Kojima, o primeiro, com seu estúdio próprio, com a participação de Norman Reedus, famoso por seu papel em The Walking Dead (Daryl).

Ainda é difícil comentar com tanta profundidade sobre este trailer, porém, preste atenção nos elementos e especialmente na letra da música e coloque em prática a análise dos trailers em Kojima.

 

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