Contos by Gusta

Conto – A sacerdotisa primal

Conto: A sacerdotisa primal - arte por Nick Muth

Yago e Brendo se encontravam uma vez por mês na central da empresa em que trabalhavam. Yago era responsável pela inspeção de frigoríficos ao redor do estado, enquanto Brendo fazia os relatórios de verificação dos fornecedores, em fazendas espalhadas pelo interior. A função da dupla era avaliar se o processo de distribuição de carne estava funcionando de maneira adequada. O trabalho pagava bem, principalmente quando o dinheiro vinha por fora. Alguns frigoríficos não estavam totalmente adequados para armazenar a distribuir suas carnes, bem como algumas fazendas não seguiam os processos humanizados no abate dos animais. Mas para Yago e Brendo, o dinheiro falava mais alto. Gordas quantias liberavam qualquer coisa, até mesmo um caso em comum que acabaram descobrindo quando se encontraram no final do ano.

– Está certo de que houve uma queda de 15% na distribuição total? – Perguntou Brendo ao ler os relatórios de Yago.

– A quantidade não bate com a parte do seu relatório destinado a outros fins, se somar todas as quantidades que não são destinadas aos frigoríficos do estado, e se comparar com os anos anteriores, este número não passava de 10%.

– Isso com certeza vai chamar a atenção da gerência… Se você alterar os seus números, eu altero os meus.

– Não dá! Até uma criança pegaria essa discrepância se somar os meus relatórios mensais. Isso é tudo culpa sua! Como pode alterar os seus relatórios a este nível? Seremos auditados…

– Pior, vão descobrir sobre a peste…

– Peste? Que merda de peste?

– Quase todas as fazendas que visitei me fizeram pedidos especiais para desviar as quantidades para outros fins, sabe como é né? Mas é bem provável que grande parte destes 25% tenha sido atingido pela peste. Somente os pequenos fornecedores não foram atingidos, ou não quiseram declarar, se aproveitando dos desvios de quantidade.

– E o que é essa peste, cara?

– Eu fui pago para mudar os números, não pra fazer perguntas. Só sei que tem menos animais na contagem por causa dessa peste.

– Brendo, seu imbecil, quantas vezes eu vou ter que te ensinar a atender pedidos especiais? Você precisa saber com o que está lidando!

– E quanto aos seus números? Você não recebeu pedidos especiais de ninguém?

– Só o usual. Eles reclamavam que a quantidade enviada estava menor e pediam pra colocar um pouco a mais, mas se for contar o que eu alterei, mais os 15%, significa que a queda é de pelo menos 25%!

– Como vamos desfazer essa merda?

– Vou conversar com o chefe, sei lá, ano passado quem estava no seu lugar foi demitido por algo parecido. Aposto que desta vez nós dois vamos perder nossas férias por isso.

Enquanto esperava Yago, que continuava fora por horas, Brendo roía as unhas e tentava somar os relatórios das formas mais mirabolantes possíveis, mas no final, sempre o resultado era diferente demais do padrão para que não houvesse desconfiança de que algo estava errado. Brendo era mais novo no trabalho, nunca precisou ter atenção quando se tratava dos pedidos especiais. O ano foi cheio, sua conta estava gorda como jamais esteve, porém Brendo achava que era fruto de um crescimento e não o contrário. A peste não passou por sua cabeça, nem mesmo as quantidades.

As férias dos dois foram canceladas aos berros. Yago se comprometeu de acompanhar Brendo em novas visitas aos fornecedores, para fazer o que chamavam de aproximação média. Todos os resultados do ano seriam aproximados com base nas quantidades apontadas no novo relatório, que só deveria acontecer quinze dias depois para os fornecedores mais próximos. Os dois pegaram a estrada e se dirigiram à fazenda dos Blunt, um dos maiores fornecedores de carne do estado, e também o mais próximo. O dono estranhou a visita, cinco dias antes do Natal.

– Veja se não é o garoto Brendo. O que te traz aqui tão cedo? Só esperava te ver em Janeiro do ano que vem.

– Seu garoto Brendo fez uma trapalhada e agora estamos aqui para fazer um novo relatório de fornecimento, se não se importar com a visita inesperada. – Intercedeu Yago. – Faremos uma recontagem de seus bois, vacas e porcos, além da inspeção de costume.

– Mas o garoto Brendo já fez isso semana retrasada. Neste momento estamos no meio do processo, não estamos preparados para receber uma visita de inspeção.

– Desculpe-me, senhor Blunt, mas de acordo com seu contrato junto à nossa empresa, as visitas não precisam ser agendadas. Nós fazemos isso por uma questão de relacionamento com vocês, uma parceria, mas por conta do erro do Brendo, precisamos fazer isso o quanto antes. Se nos dá licença, precisamos…

– Senhor Yago, creio que não será possível que o senhor faça esta visita. – Respondeu o homem de vestes de couro, sacando uma arma da cintura. – Veja, hoje não é um bom dia para isso e o seu garoto foi pago pelo serviço.

– Calma aí, senhor Blunt… – Gaguejou Brendo. – Não queremos causar problemas, mas se não fizermos a inspeção nós mesmos, em algum momento o pessoal da auditoria vai vir no nosso lugar, e eles não são tão parceiros como nós.

O homem coçou a cabeça com o cano da pistola e parou por alguns instantes.

– Qual é o itinerário de vocês?

– Não tem nada lançado no sistema, mas a sua fazenda seria o destino mais lógico. – Respondeu Yago.

– Bom, neste caso, vamos conversar lá dentro.

Blunt guardou sua arma e colocou a dupla para dentro dos portões da fazenda. Estava na hora do almoço e como de costume, o fazendeiro pediu um prato extra para cada um. Durante o almoço, Yago estava preocupado, então sacou o celular por debaixo da mesa e começou a gravar a conversa.

– Senhor Blunt, Brendo mencionou que sua fazenda, assim como muitas, está sendo afetada por uma peste. Pode falar mais sobre isso?

– Sim, a peste. Veja, é por causa dela que hoje não era um bom dia para vocês estarem aqui, mas posso mostrar-lhes mais tarde o que ela significa.

– Temos muitas fazendas para visitar! Não podemos passar o dia aqui.

– Senhor Yago, não quer que eu saque minha arma novamente, quer?

O restante do jantar foi devorado em silêncio. Blunt levou os dois para um passeio de trator pela fazenda. Era notável que o número de animais não estava tão mal quanto apontado no relatório de Brendo, que apenas declarou a quantidade a pedido do fazendeiro. Yago percebeu logo, mas não teve coragem de falar nada. Estava ficando escuro quando finalmente fizeram uma parada, em uma parte do pasto que estava vazio por quilômetros a céu aberto.

– Veja, Brendo. Nós já sabíamos que você iria cometer este erro. Todo ano é a mesma coisa.

– Não exatamente, senhor Blunt. Esta é a primeira vez que o processo foi tão descarado. Nos anos anteriores não passou de 10%.

– Sim, eu entendo, mas este foi um ano cheio. As coisas saíram do controle e nosso acordo com os frigoríficos enfraqueceu. Felizmente vocês estão aqui, para fazerem parte do acordo.

– Acordo? – Perguntou Brendo.

– Silêncio, garoto. Estou falando com seu amigo. – Blunt sacou a arma e deu um tiro na perna de Brendo, que caiu.
– Se gritar, vai levar outro tiro.

– Está maluco!? – Gritou Yago. – Isso com certeza chegará aos ouvidos da nossa gerência.

– Não vai, pois você não vai deixar. Veja, todo ano é assim, sempre foi e sempre será. Desde que você faça o seu trabalho, hoje só teremos um sacrifício.

Blunt deu um segundo tiro, desta vez na coxa esquerda de Brendo. Ele se segurava para não gritar, mordendo as costas da mão a ponto de sangrar. No horizonte do por do sol apareceu uma silhueta, com dois chifres apontando para cima e um vestido esvoaçante. Chegando mais próxima, a silhueta revelou uma mulher com vestes longas e um crânio de um boi, pequeno, em sua cabeça. Ela arrastava um objeto que estava oculto em suas costas, uma espada do tamanho de sua perna, com a ponta bifurcada. Sua lâmina era esculpida com símbolos estranhos e sua empunhadura tinha quatro crânios entalhados na madeira.

– Sacerdotisa primal, eis aqui o seu sacrifício. – Disse o fazendeiro apontando para Brendo.

– O que está fazendo, Blunt? – Perguntou Yago, desacreditado do que estava prestes a vislumbrar.

– Todos os dias fazemos sacrifícios em nome da sacerdotisa primal. Em troca, temos sua proteção e diversas regalias em vários centros que cultuam o Livro dos Corvos. Agora que o Vassalo foi escolhido, foi preciso intensificar os sacrifícios para manter a força primal em curso. Algumas pessoas ficaram irritadas, como o pessoal dos frigoríficos, mas você vai resolver esse problema para nós, ou então, terá o mesmo destino que seu garoto Brendo.

A sacerdotisa estava distante, mas logo, como num piscar de olhos, já estava com sua espada cravada no chão, entre as pernas de Brendo. Um circulo de luz verde e roxa apareceu ao redor dos dois.

– Uma vez ao ano, a sacerdotisa primal precisa do sangue de um humano para continuar forte. Não é muita coisa, mas não são todos que estão dispostos a se arriscar para entregar-lhe uma oferenda. Se não fosse por vocês terem aparecido justo hoje, que a sacerdotisa me faria uma visita, estaríamos sacrificando apenas porcos e bois. Com esse sacrifício, este ano terei a Marca, e você terá a honra de testemunhar o processo.

Com cortes certeiros, a sacerdotisa desmembrava Brendo, cortando seu corpo em pequenas fatias dos pés até a cintura, quando o garoto desmaiou. Com a mão esquerda erguida, alinhada com o por do sol, ela espremia a carne das fatias e o sangue escorria em sua boca. Depois de esgotar cada fatia até a cintura, ela passou para os braços. Yago fora obrigado a assistir o ritual com uma arma na cabeça. Entre vômito e lágrimas, ele assistiu Brendo ser cortado como um pedaço de carne dos frigoríficos que visitava. Quando somente sobrou o tronco e a cabeça, ela fez um corte no pescoço, separando os dois. Dividiu o tronco em duas partes na vertical e espremeu os órgãos até murcharem. O som dos ossos de Brendo estalando ecoava pelo campo aberto.

Por fim, somente a cabeça sobrou. Com uma pequena adaga, a sacerdotisa descascou a pele, removeu os olhos, a língua e o cérebro e os colocou em um prato preto, que surgira da palma de sua mão. Blunt hesitou, mas logo os consumira. Somente o crânio vazio de Brendo sobrou. A sacerdotisa tocou a testa do crânio e uma aura verde emanou. Os olhos do crânio de boi que estava em sua cabeça brilharam e a aura foi sugada para dentro deles. A sacerdotisa então o jogou no ar e todos os restos mortais de Brendo se tornaram fumaça. Ela lambeu seus beiços e se aproximou de Blunt, introduzindo seu indicador no peito do fazendeiro.

– A escuridão está vindo, porém seus olhos enxergarão. Cantará a canção, pois sua língua saberá. A evidência não é clara, mas perceberá. Receba a Marca.

O fazendeiro foi envolvido por uma chama esverdeada. Enquanto ele gritava e queimava, a sacerdotisa segurou o rosto de Yago e lambeu sua boca.

– Prove. Esta é a escuridão que espera aqueles que não confiam no Livro dos Corvos. Encontre-se ou será encontrado.

O fogo desapareceu tão rápido quanto a sacerdotisa se desfez em sombra. Blunt emergiu nu porém sem nenhuma queimadura. Ele gargalhava enquanto Yago corria.

No dia seguinte, Yago procurou seu chefe e admitiu que ele cometera o erro em seus relatórios mensais, pensando que seria demitido por falsificar informações. Não foi o que aconteceu, e ele teve continuar passando pelos demais frigoríficos. Os homens o temiam. Acordos foram fechados, montantes enormes de dinheiro entraram na conta de Yago, porém nada compraria o horror que ele vislumbrou.

 

Por Gusta. Arte por Nick Muth


Olá pessoal! Como mencionado no primeiro conto publicado aqui no blog, pretendo escrever histórias curtas como esta, que pude desenvolver em algumas horas, sem apego, como forma de exercitar minha criatividade e gerar contos rápidos, inicialmente inspirados nas artes exóticas do Mr. Muth (a propósito, caso tenha se interessado pela arte dele, confira aqui na lateral do blog como encomendar artes comissionadas com ele!). Como também já mencionei, estou aceitando sugestões de temas ou imagens para me inspirar e escrever sobre, logicamente dando o crédito e parceria pelo feito. Saiba mais no formulário logo abaixo. Além disso, caso encontre algum erro que eu deixei passar, por favor, não deixe de me avisar!

Bom, mais uma vez o tema acabou convergindo para a trama ao redor do Livro dos Corvos. Apesar de ser uma trama fechada, alguns elementos estão começando a se ligar. Não sei onde isso vai me levar, só sei que alguma coisa evil vai se desenrolar.

Curtiu? Não esqueça de comentar e compartilhar, afinal, estou publicando estas pequenas histórias por aqui como forma de divulgação. Aproveita pra curtir a página do blog no Facebook. Confira os demais contos no índice que fica aqui na lateral do blog. Um abraço e até mais!

Comenta aí!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s