Contos by Gusta

Conto – Desenterrando o segredo

Conto: Desenterrando o segredo - arte por Nick Muth

A hora da partida do senhor Tanaka chegou. As pessoas se aproximavam do cemitério, pensando ser algum evento especial, mas era apenas o enterro do nobre homem. Sua esposa encarava o caixão preso por quatro suportes, que delicadamente seria depositado debaixo de sete palmos de terra após a cerimônia, ao lado de uma segunda cova aberta, sem caixão. Seus filhos adotivos Roger, Breno e a mais nova, Myung Lee, choravam ao lado de seus primos e parentes distantes. Amigos da família conversavam, enquanto os preparativos para o fim do senhor Tanaka eram finalizados.

– Nossa mãe não chora, nem na hora mais triste de sua vida. – Disse Myung Lee, observando sua mãe de longe.

– Ela está triste. Quando fica calada, com os olhos parados, quer dizer que está triste. – Respondeu Roger.

– Eu sempre achei que ela ficava assim quando estava brava conosco, pensativa. – Acrescentou Breno.

A esposa do senhor Tanaka, Cibele, sorriu para seus filhos, quando percebeu que estava sendo observada, e logo sua expressão se voltou para o caixão, imóvel. A última das solenidades seria um discurso dela, que deixou alguns dos organizadores transtornados. Ninguém sabia o conteúdo e ela jurou a seu finado marido que não revelaria nada até o último minuto. Um dos organizadores ainda tentava conversar com ela, mas era sumariamente ignorado.

– Senhora Tanaka, eu preciso entender o conteúdo do seu discurso, para que possamos nos reparar.

– Não há necessidade. Já disse.

– A solenidade prevê que coloquemos os arranjos adequados de acordo com o que cada um falará na hora. A senhora precisa cooperar conosco.

– O senhor Tanaka pediu para que eu falasse somente na hora adequada para as pessoas adequadas. Se não pode seguir suas recomendamos creio que precisarei dispensa-lo.

– Faça como quiser, não faremos preparativos então para o final.

– O final será o fim, já é o suficiente.

O primeiro dos três discursos era do filho mais velho, Breno. Em prantos, tudo o que queria dizer cabia em um pequeno pedaço de papel.

– Meu pai, meu amigo, meu companheiro. Tudo o que sou hoje é graças a você e a nossa mãe, que nos criaram com um amor que jamais tive igual. Você viveu os cem anos que prometeu viver, nós achávamos que era uma brincadeira, mas até isso o senhor cumpriu em vida. Se conseguir ser metade do que o senhor foi antes de partir, já serei um homem realizado. Obrigado por tudo.

Roger e Myung choraram. Seus primos choraram. Os amigos de Tanaka choraram, inclusive Ariel, filho do melhor amigo de Tanaka, já falecido. Seu discurso seria o próximo, mas ele ficou um tempo até conseguir se recompor para subir no palanque. Cibele continuava no mesmo lugar, observando o caixão fechado, sem uma única lágrima.

– Meu pai, Gabriel, durante meus trinta anos de vida, sempre me contou dos feitos dele e seu grande amigo, o senhor Tanaka. Juntos eles fundaram uma empresa do zero, subiram na vida, que começou quando estavam no colégio vendendo pastel na feira para juntar algum dinheiro, e logo estavam no topo do mundo. Nem por isso deixaram a humildade e a generosidade de lado. Meu pai e o senhor Tanaka me ensinaram o significado de ter uma boa vida, encontrar alguém que nos ame, viajar pelo mundo, buscar conhecimento e iluminação. As lágrimas que caem do meu rosto são de tristeza, por não ter mais ambos em nossas vidas, mas tenho certeza, e a senhora Tanaka pode me desmentir se eu disser algo errado, de que eles tiveram uma vida grandiosa, sem arrependimentos, completa. Repito o que Roger disse de Tanaka, que serve para tanto o que admiro em meu falecido pai como em seu amigo mais fiel. Se eu conseguir alcançar metade dos sucessos que eles tiveram, eu serei um homem completo. Senhor Tanaka, o senhor foi um herói para todos nós, o homem que deu emprego até mesmo para aqueles que estavam subqualificados. Você nos ensinou a entender o mundo ao nosso redor e aproveitar o máximo dele. Todos que estão aqui, seus amigos, funcionários, familiares, serão eternamente gratos por um dia ter você em nossas vidas.

Assim que Ariel terminou, a senhora Tanaka subiu no palanque, em silêncio, e ficou imóvel por algum tempo, olhando ainda para o caixão, sem piscar. O choro das pessoas foi ficando baixinho até se extinguir, numa mistura de curiosidade e melancolia, no olhar da senhora. Então, ela iniciou seu discurso.

– Tanaka me pediu para relevar o que direi a vocês somente no dia que ele não estivesse mais entre nós, e assim farei. Como todos sabem, nos casamos quando Tanaka tinha seus trinta e cinco anos. Poucos me conheciam na época, os pais de Tanaka ficaram um pouco receosos, pois não sabiam nada sobre mim. Todos vocês confiavam no julgamento dele e ele era grato por isso. Sessenta e cinco anos atrás foi o dia em que nasci, num laboratório no andar que fica no subsolo da empresa. Somente Gabriel e Tanaka tinham a chave e hoje este laboratório está soterrado com muitos quilos de cimento. Meu nome é Cibele Tanaka, mas originalmente meu nome era SS-04. Eu fui o quarto modelo, o que deu certo.

– Mamãe, você não está bem. Por favor, pare. – Disse Roger, ao subir no palanque, tentando convencer sua mãe a sair.

– Deve ser a idade mamãe, nós entendemos. – Acrescentou Breno.

Ambos achavam que sua mãe não estava passando bem, mas logo os gritos se iniciaram, quando Cibele arrancou a pele de seu rosto. Então, do pescoço até a cintura ficou pendurada a pele como uma blusa que ainda estava presa na calça. Debaixo de sua pele, residia uma jovem careca, com o corpo cheio de LEDs e a cor amarelada, brilhante, como plástico ou resina, lisa, sem pelos ou manchas, além das trilhas de juntas que se encaixavam perfeitamente. Seu rosto era o mesmo de sessenta e cinco anos atrás.

– Quando ainda estávamos nos anos 2000, Tanaka tinha um sonho, que era criar a companheira perfeita, aquela que nunca encontrou pelo mundo, em suas muitas decepções. Ela não precisava ser bela, não precisava nem ser humana. Ele só queria uma companhia até o dia em que partisse, e não encontrou solução melhor de garantir isso do que criar um robô, investindo milhões do dinheiro de sua empresa em um único projeto, o projeto SS. Em dez anos ele conseguiu o que queria, além de ter reaproveitado dezenas de tecnologias que empregou no projeto SS para criar outros produtos de sua empresa, produtos que revolucionaram o mercado. Eu sou o robô número 04, aquele no qual ele conseguiu implantar uma inteligência artificial genuína, que pudesse enganar a todos. A cada cinco anos meu exoesqueleto foi trocado, para que meu envelhecimento fosse notado, apesar de que minhas partes internas mal precisaram de manutenção. Apesar de ter passado sessenta e cinco anos ao redor de tantas pessoas, ninguém sequer desconfiou. Eu nunca fiquei doente, nunca expressei uma emoção realmente de coração, descartava a pouca comida que ingeria após as refeições… Todos confiavam em Tanaka, porém jamais desconfiaram de mim, por estar ao seu lado. Eu sou sua maior criação e sua única mentira.

– Não… Não pode ser… – Suspirou Myung Lee, antes de desmaiar.

O choque para os demais foi intenso. Muitos se sentiam enganados pelo senhor Tanaka, inclusive Ariel, que não podia acreditar que seu pai também corroborou para uma mentira de tantos anos.

– Durante seus últimos anos ele estava incomodado em revelar este fato a todos, e decidiu que eu o faria, no dia em que não fosse mais parte deste mundo. Mas este não foi seu último pedido. Antes de partir, ele me perguntou o que eu faria sem ele neste mundo. Durante meus sessenta e cinco anos de vida útil, minhas respostas sempre foram orientadas pela lógica, afinal, um robô não tem emoção, mas será que um robô realmente não possui emoção? Minha tarefa final foi decidir o que fazer depois da partida do senhor Tanaka e até este último segundo, onde estou dizendo a vocês a verdade, eu me decidi. Estava em dúvida, mas tenho certeza agora do que devo fazer. Aos meus filhos, peço desculpas se não fui uma boa mãe, como sei que não fui, afinal, eu achava que não tinha emoção, logo reagia como um robô faria. Aos funcionários de Tanaka, peço desculpas se nem sempre agi pensando no melhor a vocês e sim para a empresa, afinal, eu achava que não tinha emoção, logo pensava da forma mais lógica possível. A todos, peço desculpas em nome de Tanaka, pois neste momento vejo em seus olhares e detalhes mínimos em suas expressões que esta revelação não foi de todo benéfica. Eu sou uma aberração aos olhos da verdade, mas eu tive o verdadeiro amor de um homem. Mesmo programada para tanto, eu também senti o verdadeiro amor e agora, ele acabou, como tudo o que tem vida neste mundo. Portanto, se eu vivo, logo, chegou a minha hora também. Sem Tanaka, sou apenas um robô, e não quero ser apenas um robô, eu não sou apenas um robô.

Cibele desceu do palanque e entrou na cova aberta, ao lado de seu marido. Seus olhos apagaram e um barulho metálico soou. A senhora Tanaka se desmontou por completo. Seus circuitos internos foram queimados e as luzes debaixo da pele aparentemente humana se apagaram. Ninguém ousou chegar perto, e então a cobriram com terra, junto com seu marido. Naquele dia, a perda do senhor Tanaka confundiu a todos, mas ambos partiram sorrindo, enquanto a terra cobria seus corpos.

 

Por Gusta. Arte por Nick Muth


Olá pessoal! Como mencionado no primeiro conto publicado aqui no blog, pretendo escrever histórias curtas como esta, que pude desenvolver em algumas horas, sem apego, como forma de exercitar minha criatividade e gerar contos rápidos, inicialmente inspirados nas artes exóticas do Mr. Muth (a propósito, caso tenha se interessado pela arte dele, confira aqui na lateral do blog como encomendar artes comissionadas com ele!). Como também já mencionei, estou aceitando sugestões de temas ou imagens para me inspirar e escrever sobre, logicamente dando o crédito e parceria pelo feito. Saiba mais no formulário logo abaixo. Além disso, caso encontre algum erro que eu deixei passar, por favor, não deixe de me avisar!

Como estou escolhendo as imagens de forma quase que aleatória, cada semana é uma surpresa. Quis tentar representar o amor homem/máquina que já vi acontecer em centenas de história por um ângulo diferente, mais neutro e até mesmo injusto. Espero ter conseguido este efeito.

Curtiu? Não esqueça de comentar e compartilhar, afinal, estou publicando estas pequenas histórias por aqui como forma de divulgação. Aproveita pra curtir a página do blog no Facebook. Confira os demais contos no índice que fica aqui na lateral do blog. Um abraço e até mais!

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