Contos by Gusta

Conto – Tudo passa

Conto: Tudo passa - arte por Nick Muth

Lá estava a dríade Andria, com seus olhos fechados e punhos serrados, segurando um pedaço de papel. Suas companheiras da floresta penteavam seus cabelos e cortavam seus galhos, enquanto das gotas de suas lágrimas floresciam cravos no chão ao seu redor. Andria, que andava tão feliz, com sua pele brilhando um verde que pulsava como folhas que acabavam de nascer, voltou de uma de suas andanças com a expressão gelada e caída. Ninguém teve a coragem de perguntar o que afligia Andria, bem porque, nunca houve uma dríade que sentiu tanta tristeza.

As dríades de Mandar viviam em florestas isoladas e só saiam de suas cidades para andar desapercebidas por aí. Elas se disfarçavam de humanos e acalentavam os corações daqueles que encontravam, com o toque da natureza. A tristeza que tiravam dos humanos se transformavam em galhos fortes para suas costas, braços e chifres, e endurecendo uma crosta em sua pele que as deixavam mais maduras. A dríade Andria era apenas uma garotinha perto de suas companheiras, com centenas de anos, e em centenas de anos, nunca viram uma dríade chorar.

– Andria, vamos andar por aí? Estou sentindo que hoje é um bom dia para ajudar as pessoas. – Disse Malina.

– Não quero, não posso. – Respondeu a dríade triste, sem virar o rosto caído.

– Andria, vamos colher maçãs para distribuir? Você distribui as maçãs. – Perguntou Namala.

– Não preciso, não quero. – Novamente respondeu a dríade triste.

– O sol está tão bom, a gente pode ficar na clareira, fazendo uma boquinha com tanta luz. – Insistiu Benanda.

– Não posso, não preciso.

As três dríades não sabiam lidar com o que estavam sentindo. Era como se a tristeza dos humanos fosse a tristeza de Andria, mas elas não conseguiam entender, como entendiam os humanos. Ficaram transtornadas, sem saber como acalentar uma companheira, cujo sentimento não era transparente e visível como o dos humanos. Um humano emite uma aura clara aos olhos das dríades, que conseguem descobrir o melhor remédio para os sentimentos ruins dependendo da aura, mas uma dríade não emite uma aura, uma dríade é uma dríade, e um humano é um humano.
Malina, Namala e Benanda foram logo procurar pela dríade-mor, Mestra Zianma, com seus milhares de anos, a mais velha de todas as dríades que não se tornaram um com a terra.

– Acalmem-se minhas garotas. – Disse Zianma com sua voz morna. – Vai passar.

– Mas Mestra Zianma, o que está acontecendo com Andria? Porque lágrimas correm de seus olhos? – Perguntou Namala.

– Ainda são jovens, não conseguem entender o que se passa no núcleo de uma dríade, que é como um coração humano, só que diferente, e assim como o coração dos humanos, ele também pode sentir. Vocês sempre sentem alegria, não sentem?

– Sim mas nós somos assim, sempre fomos!

– Ainda tem muito o que aprender, minhas garotas. São alegres porque fazem o bem para as pessoas, mesmo que as pessoas façam o mal para vocês ou retribuam, mas esta é uma alegria de dríade, não uma alegria de humano.

As três dríades ficaram confusas, não entendiam as palavras de Mestra Zianma, que acabou cedendo e mostrando a visão do que se passou com Andria direto em suas mentes.
Andria estava fazendo uma de suas andanças, quando viu um homem triste sentado embaixo de uma árvore. Ele parecia inofensivo, retraído com os braços abraçando suas pernas e a cabeça abaixada. Sua aura emanava uma cor vermelha escura, um amor perdido. Andria logo mudou sua aparência para uma linda humana de cabelos negros e brilhantes e a pele escura.

– Meu nobre homem, o que te aflige?

– Quem é você?

– Eu sou Andria, como você se chama?

– Nando. O que faz sozinha nesta floresta?

– Eu ando por aqui. E você, o que faz sozinho nesta floresta?

Os dois sentaram e conversaram por horas. Nando contou que foi deixado por sua esposa, quando ela descobriu que ele tinha mentido sobre outra mulher. Então, a outra mulher o deixou, pois não queria um homem desonesto como Nando. Andria entendeu a tristeza de Nando e o levou para andar pela floresta. Ela colheu um punhado de maçãs e os dois comeram. Não que Andria precisasse comer, mas tudo para afastar a aura escura de Nando.

– Posso te encontrar aqui amanha? – Perguntou Nando, com um sorriso no rosto, mas sua aura ainda continuava escura.

– Claro, você pode me encontrar aqui novamente.

Andria voltou naquele dia feliz para sua cama, mas confusa, pois não entendeu como Nando continuava com sua aura escura. No dia seguinte eles voltaram a se encontrar e conversaram sobre muitas coisas. E no dia seguinte, no dia seguinte, e no dia seguinte. A dríade tentava todas as palavras e gentilezas, mas a aura de Nando continuava escura. Até que enquanto estavam sentados, comendo maçãs, Nando roubou um beijo de Andria. A garota logo levantou e saiu correndo. Diversas sensações passaram por dentro dela, coisas que ela nunca havia sentido. Mas ela foi deitar ainda alegre em sua cama, e no outro dia, Nando estava a esperando. E logo outro beijo aconteceu. Entre afagos e carinhos, Andria se sentia um incomodo lá no fundo. Ela respondia como uma humana mas queria dizer a verdade.

– Queria acompanhar você numa caminhada até sua casa. – Dizia Nando, de mãos dados com Andria.

– Não precisa, eu sei meu caminho.

– Você não gosta da minha companhia?

– Eu gosto da sua companhia, e você, gosta da minha companhia?

– Sim, eu adoro a suma companhia, e queria ficar mais tempo com você. Porque não vem até a minha casa? Podemos ficar conversando até tarde.

– Até tarde? Eu não posso, preciso voltar cedo para minha casa.

E assim, a dríade fugaz afastava a presença do homem que queria manter mais perto. Sua aura ainda não estava clara, e ela insistia porque queria curar sua tristeza. Quando a aura de Nando estava perto de ser curada, ela escurecia novamente, com as palavras distantes da dríade, que percebeu a causa da aura negra.

– Nando, eu preciso te contar uma coisa.

– Pode me contar tudo o que quiser.

– Eu… Eu não sou humana, eu sou uma dríade. Veja quem sou eu.

Sua cor negra se transformara num verde brilhante, suas roupas se desfizeram em folhas. Ela tinha chifres e sua costas tinham grandes galhos. A pele de seu braço era dura como o tronco de uma árvore. Nando caiu para trás, bateu a cabeça em uma árvore, e desmaiou. Quando acordara, estava nos braços da dríade, que acariciava seus cabelos. Seu olhar desviava dos olhos de Andria, e suas respostas ficaram curtas. A aura vermelha escura se tornara azul clara. Ele estava curado, mas seu coração estava diferente. Ele se despediu com um beijo seco, e no dia seguinte, ao invés de Nando, Andria encontrou um papel pregado no tronco da árvore. A dríade não sabia ler palavras humanas, mas nem precisava. Ela entendeu que Nando não voltaria mais. Ela enrolou o papel e o segurou firme perto de seu peito. E chorou.

– Mas Mestra Zianma, no final o humano estava curado, sua alma estava clara. Não consigo entender o que Andria está sentindo. – Perguntou Benanda confusa com o fim da visão.

– Andria ajudou o homem quando ele se sentiu abandonado, mas ninguém pode ajudar Andria, que foi abandonada por ele. Ela absorveu seu sentimento e entendeu o que ele significava, quando se viu na mesma situação. Sempre há uma primeira vez para sentir algo novo.

– Isso pode acontecer com a gente também?

– Não é só de alegria que vive um coração, mas assim como a alegria que sentem quando ajudam as pessoas passa, a tristeza também passa, tudo passa. Vai passar.

 

Por Gusta. Arte por Nick Muth


Olá pessoal! Como mencionado no primeiro conto publicado aqui no blog, pretendo escrever histórias curtas como esta, que pude desenvolver em algumas horas, sem apego, como forma de exercitar minha criatividade e gerar contos rápidos, inicialmente inspirados nas artes exóticas do Mr. Muth (a propósito, caso tenha se interessado pela arte dele, confira aqui na lateral do blog como encomendar artes comissionadas com ele!). Como também já mencionei, estou aceitando sugestões de temas ou imagens para me inspirar e escrever sobre, logicamente dando o crédito e parceria pelo feito. Saiba mais no formulário logo abaixo. Além disso, caso encontre algum erro que eu deixei passar, por favor, não deixe de me avisar!

Esta semana acabei fazendo algo diferente do estilo dos últimos contos, com um resultado mais curtinho, porém achei interessante. Gosto de escrever independente do estilo, portanto não espere que eu sempre siga uma mesma linha sempre. Acho que cada história é uma história, fazer a mesma coisa sempre acaba deixando o trabalho previsível e ser previsível é algo que eu não espero me tornar.

Curtiu? Não esqueça de comentar e compartilhar, afinal, estou publicando estas pequenas histórias por aqui como forma de divulgação. Aproveita pra curtir a página do blog no Facebook. Confira os demais contos no índice que fica aqui na lateral do blog. Um abraço e até mais!

2 pensamentos sobre “Conto – Tudo passa

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