Contos by Gusta

Conto – A coroa

Conto: A coroa - Arte por Nick Muth

– Vingança, amarga vingança. Em nome de minhas companheiras e minha irmã, chegou a hora.

Os olhos de Julia estavam em chamas, observavam seus subordinados, homens e mulheres treinados para matar um inseto em pleno ar com apenas um único tiro. Anos de preparação convergiam para aquele momento, em que ela comandava duas equipes com vinte agentes das forças especiais em uma cidade no interior, com ruas de barro e casas de madeira e palha. O retrocesso daquela civilização isolada incomodava Julia, adepta de avançada tecnologia em seu dia a dia, ainda mais sabendo o que poderia estar por trás da fachada pacata daquele lugar.

– Equipe Alfa, em posição, comandante Julia.

– Equipe Omega, em posição, comandante Julia.

– Prossigam com a manobra de reconhecimento.

O sol já havia se posto e a população encolhida em seus cobertores dentro de suas casas. A neve cobria os telhados pontiagudos das casas que não estavam protegidas pelas enormes e densas árvores, cujas copas se perdiam de vista. As tochas que iluminavam as ruas não resistiam ao vento, logo não se enxergava um palmo em meio a escuridão, hora branca, hora negra, o que só favorecia as equipes de Julia, equipadas com capacetes de visão noturna e vestes térmicas. Dois homens de cada equipe circundavam a área ao redor do único monumento grandioso daquela civilização isolada: uma igreja cujas paredes se ligavam a diversas árvores, formando uma construção moldada direto na natureza, cercada por vinhas e galhos.

– Padre Renkse, tem certeza que está preparado?

– Sim, minha cara Julia. Já lutei batalhas piores, mesmo você não acreditando.

– Não vamos tomar nenhuma atitude drástica se identificarmos que os alvos não possuem condições de reação, você pode ficar aqui. Confesso que tenho receio de que me atrapalhe.

– Julia, sabe que não vim pessoalmente só por conta do caso.

– E sabe que eu não acredito nessas baboseiras. É só um bando de malucos.

– Um grande sábio me disse uma vez que mentiras podem se tornar verdades se repetidas até acreditarmos. Você subestima estes homens, mesmo depois do que fizeram com sua irmã.

– Eu sempre amarei minha irmã, mas ela era estúpida. De qualquer forma, chegou a hora.

Dois anos antes, uma parte do caso já estava na mesa de Julia, que não deu muita atenção. Para ela, eram desaparecimentos comuns. O padre Renkse a procurou alertando sobre o crescimento de uma nova religião, “A coroa”, mas para ela, era “só um bando de malucos”. Até o desaparecimento de sua irmã, Katja.

Julia não estava preparada para “A coroa”, mas “A coroa” estava preparada para dar-lhe uma amostra do que era o desespero. Numa declaração pública por pressão de entidades ligadas ao governo, Julia zombou da suposta ligação entre os desaparecimentos de mulheres em várias cidades do estado com a religião “A coroa”, a qual intitulou, uma seita de desocupados, para então descobrir que sua irmã estava envolvida com “A coroa”.

Durante a investigação do desaparecimento de Katja, Julia encontrou um homem envolvido com “A coroa” que coincidentemente foi visto com sua irmã uma semana antes de seu desaparecimento. A fúria de Julia a motivou a conduzir um interrogatório por conta própria, que acabou fora dos autos da investigação oficial. A tortura que quase acabou com a vida do homem foi de alguma valia, mas era tarde demais, e pouco demais.

– Equipe Alfa, perímetro seguro.

– Equipe Omega, perímetro seguro.

– Vamos invadir.

Os membros d”A Coroa” juravam fidelidade perante ao medo e ao desespero, as duas fontes de poder do alto escalão. Como prova de sua força, o corpo de Katja foi exposto no centro da cidade, sem que ninguém tenha presenciado a preparação da escultura viva moldada em uma árvore de uma praça a poucos metros da casa de Julia. A parte superior do corpo de Julia estava incrustada no centro do tronco da árvore. De dentro de seus olhos saiam raízes que formavam uma espécie de coroa ao redor de sua cabeça e no lugar de seus membros, galhos e vinhas que a prendiam ao redor da árvore. Seus braços e pernas, bem como a parte inferior de seu corpo, estavam jogados no chão, espalhados num ato profano aos olhos do padre Renkse, que acompanhou Julia de perto a partir deste dia.

Os atos de Julia que seguiram a morte de sua irmã deixaram cicatrizes profundas na mente de ambos, atitudes que ela jamais imaginou que tomaria para obter uma resposta das dezenas de integrantes d”A coroa” que torturou, porém finalmente encontrou a resposta que precisava. Com autorização do alto escalão do governo, Julia reuniu seus melhores homens e mulheres para derrubar “A coroa” até chegar em seu núcleo.

Apesar da cidade nitidamente em condições precárias e casas frágeis, os portões da enorme igreja eram de madeira nobre e maciça, mas que não resistiu ao serem explodidos pela equipe Alfa. Entre a equipe Alfa e Omega, estavam Julia e o padre, ambos armados com fuzis. Logo dois homens de Julia caíram, com flechas atravessadas nas juntas de suas roupas. Doze fiéis armados com arcos e flechas feitos de ossos gritavam enquanto tentaram resistir, porém, logo estavam ao chão. A investida das forças especiais prosseguiu por meia hora de tumulto entre os andares e árvores dentro da enorme construção, entretanto sequer uma mulher foi encontrada.

– A fundação desta igreja é sólida, apesar da terra que a cobre. – Questionou Julia.

– Comandante, temos razão para acreditar que há uma construção debaixo desta fundação. – Respondeu um dos homens.

– Algumas árvores parecem estar vindo debaixo do chão, metros abaixo. – Acrescentou outro.

A entrada para o andar inferior estava localizada em um fundo falso de uma porta de armário, nos fundos do local. Um cheiro pútrido escapou para a superfície assim que o pedaço de madeira foi removido. A equipe Alfa foi a primeira a descer. Dois homens voltaram correndo e tiraram seus capacetes, vomitando. Os demais prosseguiram. O corredor de acesso a uma porta trancada tinha suas paredes de terra forradas com corpos em decomposição, todos de mulheres. Os mais conservados estavam mais próximos da porta. O rosto de Katja veio a mente de Julia assim que ela enxergou dezenas de outras mulheres com raízes em formato de coroa saindo de seus olhos. Ela avançou e tomou a dianteira da equipe Alfa, num ímpeto de puro ódio.

Ao arrebentar a porta, como suspeitavam, estavam reunidos dezenas de homens ricos, alguns famosos, e centenas de mulheres amarradas. A sala, diferente do restante das construções da área, incluindo a pomposa igreja, tinha o revestimento de metal, com isolamento acústico. Aos fundos, algumas pequenas salas, nas quais algumas mulheres ainda estavam respirando enquanto seu sangue era drenado e seus órgãos um a um removidos. O dia não podia ser mais propício: no ápice da Lua cheia, os líderes da seita se reuniam para escolher a nova “rainha”. Para tanto, nove mulheres eram selecionadas e se digladiavam no centro de uma arena, dentro de um fosso, ao redor dos olhos dos homens. A “rainha” anterior era desafiada pela vencedora. Somente uma podia sair consciente da batalha, e somente uma rainha podia emergir ao fim. As demais mulheres, não selecionadas, assistiam ansiosas a batalha, num cântico em algum idioma irreconhecível, se é que era algum idioma.

– Parem essa palhaçada! Agora! – Gritou Julia.

Os olhos fervorosos das mulheres se voltaram a equipe Alfa e a equipe Omega, que mal teve tempo para reagir. As mulheres empunhavam lanças feitas de ossos dentro de ossos, duras e pontiagudas. Julia não sabia o que fazer. Mesmo em embate físico, as mulheres pareciam superar a força de seus homens treinados.

– Julia, dê a ordem! Por favor! – Exclamou o padre.

Quando o capacete do primeiro homem foi atravessado, os primeiros tiros foram dados, sem a ordem da comandante. Uma a uma, os rostos doces com bestas encarnadas em seus espíritos caíram. Julia permaneceu imóvel diante da “rainha”, uma mulher da sua altura, porém emanando uma aura congelante que a paralisou.

– Oh meu Deus, me perdoe por meus pecados, novamente.

O tiro final foi dado pelo padre Renkse, na cabeça da rainha, que ainda deu alguns passos até cair centímetros próxima aos pés de Julia. Ao perceberem as mulheres mortas, as dezenas de homens sacaram adagas e cortaram suas gargantas num último cântico uníssono.

– A coroa sobrevive.

Julia jamais entendeu se aqueles homens acreditavam em sua própria religião, ou se apenas a usavam como fachada para uma rede de venda ilegal de órgãos. Ela não conseguia realizar de onde veio a força daquelas mulheres, que derrubaram seus homens e os obrigou a usar armamento pesado, contra mulheres nuas empunhando armas rústicas. A aura da “rainha”, que a paralisou com um olhar, ficou gravada em sua mente. Ela não conseguia acreditar como elas foram convencidas a tamanha insanidade, assim como os homens eram capazes de criar uma crença e difundi-la a ponto dela se tornar real para aqueles que a conduziam ou seguiam. Mas uma coisa ela entendeu. Aquelas pessoas não eram apenas um bando de malucos.

 

Por Gusta. Arte por Nick Muth


Olá pessoal! Como mencionado no primeiro conto publicado aqui no blog, pretendo escrever histórias curtas como esta, que pude desenvolver em algumas horas, sem apego, como forma de exercitar minha criatividade e gerar contos rápidos, inicialmente inspirados nas artes exóticas do Mr. Muth (a propósito, caso tenha se interessado pela arte dele, confira aqui na lateral do blog como encomendar artes comissionadas com ele!). Como também já mencionei, estou aceitando sugestões de temas ou imagens para me inspirar e escrever sobre, logicamente dando o crédito e parceria pelo feito. Saiba mais no formulário logo abaixo. Além disso, caso encontre algum erro que eu deixei passar, por favor, não deixe de me avisar!

Curtiu? Não esqueça de comentar e compartilhar, afinal, estou publicando estas pequenas histórias por aqui como forma de divulgação. Aproveita pra curtir a página do blog no Facebook. Confira os demais contos no índice que fica aqui na lateral do blog. Um abraço e até mais!mais!

2 pensamentos sobre “Conto – A coroa

  1. Pingback: A Coroa - Conto de Gusta

Comenta aí!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s