Diário de Bordo

Diário de Bordo 3 – Dobradinha de shows e a importância da música

Quem me conhece bem sabe que eu evito multidões ou lugares lotados o máximo que posso. É uma agonia pessoal, eu não sou fã de concentrações excessivas de pessoas (principalmente no trânsito). Quem me conhece bem também sabe que ao contrário dessa repulsa, eu amo definitivamente música (uma das poucas coisas que posso dizer que amo, pois amar é uma palavra muito forte, reservada pro que realmente faz parte de mim).

Fui criado em uma casa onde criança nós fomos apresentados a bandas com Iron Maiden, Black Sabbath e Pink Floyd, e isso só se seguiu. Tive walkman, discman, som portátil, mp3 e hoje onde eu vou tenho um som, um fone de ouvido, pendrives lotados com trilhas e mais trilhas. Eu não apenas ouço música, mas considero que sinto cada nota passando dentro de mim, fluindo como se fosse parte de mim. Pode soar piegas mas música pra mim é parte fundamental do meu dia a dia, do meu passado, presente e futuro.

Aquele momento mágico da música em que tudo o que está ao seu redor some

Aquele momento mágico da música em que tudo o que está ao seu redor some

Tantas destas bandas, do meu passado ou do meu presente, já se apresentaram em grandes shows aqui no Brasil, como os gigantes do Iron Maiden que lotam estádios, ou David Gilmour que fez o maior show de sua carreira (em suas palavras) aqui pertinho, mas eu não foi em nenhum destes shows. As vezes as pessoas me perguntam indignadas como eu posso ter perdido um show ali ou aqui.

Apesar de ouvir e conhecer muita coisa da música, não necessariamente estas bandas ou artistas representam algo forte em mim o suficiente hoje a ponto de me tirar de casa pra enfrentar filas e multidões. Se tiver que ir a um show, eu não vou pra zoar, conhecer outras pessoas ou pra filmar, eu vou pra ver o artista de perto, sentir a música ao vivo, cantar junto, mas principalmente, prestar atenção, o que leva a um outro ponto. Se o show é muito grande, existe a chance de ficar muito longe, ter que ficar lutando por lugar, perdendo tempo com estas trivialidades, eu já nem considero ir. Se tiver lugar sentado, marcado, já me atrai mais.

Até hoje em minha vida, shows que eu paguei pra ver bandas que eu gosto, dá pra contar na mão direita, e esse ano, para minha felicidade extrema, dois dos mais importantes que poderiam acontecer, aconteceram.

Steven Wilson – O show que esperei por dez anos

Steven Wilson

Minha história para tentar ir no show deste artista que considero hoje meu favorito, além de um modelo e ídolo, é vasta. Conheci o trabalho do Steven Wilson através do Porcupine Tree, sua talvez-finada banda, em 2007. Foi amor a primeira ouvida, o albúm Fear of a Blank Planet ainda está na minha playlist constante até hoje. A banda “acabou” e o Steven Wilson começou a investir em sua carreira solo. O primeiro show que ele fez no Brasil eu perdi, porque não acompanhava de perto a recente carreira solo. Depois, quando ele voltou, eu comprei o ingresso, um camarada que ia comigo desistiu, o local do show mudou e eu desisti. Anos mandando e-mail, colocando “Come to Brazil” em diversas postagem da página oficial, pedindo uma segunda chance. Então, no auge de sua carreira, numa noite de sexta-feira, o anúncio saiu. Steven Wilson no Brasil.

Tá certo que eu acho que minha reação no dia foi exagerada, mas enquanto eu não comprei o ingresso numa segunda, véspera de feriado, eu não sosseguei. Passou o longo mês e meio de espera e o show chegou. Eu sabia de cor todas as setlists da turnê inteira, cada música que poderia tocar e o show foi muito melhor do que eu conseguia imaginar. A casa de shows, o Carioca Club, infelizmente era pequena e não pode comportar todo o equipamento trazido para o show, mas mesmo assim foi uma experiência incrível, que eu pude compartilhar com pessoas que amo. O setlist variou com músicas de toda a carreira, tanto da solo como de outras bandas (Porcupine Tree, Storm Corrossion…), o que trouxe pra mim sentimentos de uma década inteira de playlist. Músicas como Drag Ropes, Index e Sleep Together eram sonhos de consumo, e todas elas foram apresentadas com maestria no mesmo show. A única música que senti falta foi Harmony Korine, o primeiro single solo do Steven Wilson, que foi substituída por Open Car, igualmente incrível, da época do Porcupine.

Steven Wilson é um músico que se envolve em todas as partes da produção de seu show e isso paga cada centavo. O som quadrifônico que ele usa faz TODA a diferença, deixando tudo muito equilibrado, limpo e balanceado, mesmo numa casa de show com uma acústica ruim. O telão próprio, que substitui os projetores merda de algumas casas de show por ai também complementa na experiência do show, além da performance sem igual de todos os músicos envolvidos. A primeira parte do show contemplou o CD completo Hand. Cannot. Erase, o último CD lançado pelo músico, enquanto a segunda parte e o encore compreenderam músicas diversas além duas homenagens ao falecido David Bowie. Minha surpresa foi me deparar com um músico que de longe parece ser calado, fechado, mas durante o show é muito simpático, interage com o público e procura os olhos de cada um enquanto faz sua performance espetacular.

Projeção da música Drag Ropes

Projeção da música Drag Ropes

No fim, depois de “tietar” a saída dos músicos, conseguimos fotos, autógrafos e eu acabei não resistindo e pechinchei uma camiseta e blusa da turnê. Simplesmente inesquecível.

Autógrafo e Camiseta/Blusa Steven Wilson Turnê 4 e 1/2

O autógrafo já tá até plastificado!

Setlist São Paulo 20/03/2016

Primeira parte (Hand. Cannot. Erase completo):
First Regret
3 Years Older
Hand Cannot Erase
Perfect Life
Routine
Home Invasion
Regret #9
Transience
Ancestral
Happy Returns
Ascendant Here On…

Segunda parte:
Drag Ropes (Storm Corrosion)
Open Car (Porcupine Tree)
My Book of Regrets
Index
Lazarus (Porcupine Tree)
Don’t Hate Me (Porcupine Tree)
Vermillioncore
Sleep Together (Porcupine Tree)

Encore:
Space Oddity (cover David Bowie)
The Sound of Muzak (Porcupine Tree)
The Raven That Refused to Sing

Marillion – Uma história de vida contada através dos altos e baixos da música

Desde que me conheço por gente, eu ouço rock/metal, principalmente quando tem um progressivo como prefixo, graças a boa educação musical provinda de meu pai. Desde que eu e meu irmão o levamos no show do Dream Theater, ele se animou com a ideia de ir aos shows. Nossa história com o Marillion começou quando eu ainda era pequeno. Nós compramos todos os CDs da primeira era da banda, que tinha como seu vocalista Derek “Fish” Dick, discos, fitas k7, VHS, mas, no mesmo mês que nasci, este vocalista saiu da banda, e em seu lugar entrou Steve “H” Hogarth. Ambos possuem características únicas, estilos diferentes, seguindo numa banda cujo rumo, assim como eu, cresceu desde 1989.

De pequeno até meados dos anos 2000, Marillion fez parte das viagens de família, das primeiras decepções de vida, das alegrias e tristezas de minha vida, até que num momento de adolescente, o som do Marillion daquela época, que mudava a cada novo CD, não fazia mais sentido pra mim, ele não me representava, então, por 15 anos eu parei no tempo, do Marillion que veio antes de mim. Nós até compramos alguns CDs da era Hogarth, mas ele era muito dramático, as músicas eram progressivas demais, o rock não estava tão evidente e meu eu adolescente não entendeu isso, até que, 15 anos depois, eu resolvi assistir um antigo VHS de clipes, que mesclavam músicas da era Fish com a era Hogarth, e de repente, a era Hogarth começou a fazer sentido.

Coleção Discos Marillion

Coleção minha e do meu pai, no cantinho tem um autógrafo do Fish, não dá pra enxergar, foto merda, luz merda

As letras, a sonoridade, a emoção que eu procurava, estava ali. Fui até o site do Marillion e dois sentimentos despertaram em mim. Um de surpresa, pois há uma playlist gratuita pra quem quer conhecer a banda, chamada de Crash Course. Ao ouvi-la, eu descobri um novo mundo dentro daquela banda que renasceu no mesmo ano que eu. Foi uma sensação indescritível, que misturava o novo e o velho numa combinação inédita. O outro sentimento foi de tristeza, pois obviamente os músicos envelheceram, mas em minha cabeça eles eram exatamente do jeito que estavam nos clipes dos anos 80/90. Quando o Marillion anunciou que vinha ao Brasil, no mesmo ano em que esse sentimento reacendeu, eu sabia que era tempo de encerrar aquele ciclo para o começo de um novo.

O show do Marillion juntou bem mais gente que o do Steven Wilson. Eu já imaginava, por isso compramos cadeira marcada, além de ser um local razoável, o Tom Brasil, casa de shows que eu já conhecia. O show, como o do Steven Wilson, teve um setlist muito variado, com músicas de toda a carreira da banda, especialmente do último CD, Sounds that Can’t Be Made (única música do show que a banda, especificamente o cabo da guitarra, falhou) e de um dos meus favoritos, Afraid do Sunlight. Difícil obviamente agradar todo mundo visto que a banda tem 18 CDs de estúdio, mas para mim todas elas mesclaram bem.

Show Marillion - Brasil, São Paulo - 2016

Saca o tamanho desse telão!

Por se tratar do primeiro show da Turnê Sul-Americana, eu não tinha a minima ideia do setlist, diferente do Steven Wilson, que já sabia de cor, então foi uma surpresa a cada música. Destaque para Cover my Eyes, um dos primeiros singles da era Hogarth, a apresentação brutal em King e em especial a música The Invisible Man, do álbum Marbles, um dos que passaram batido por minha playlist. Eu nunca tinha prestado atenção nesta faixa e acabei impressionado com a apresentação dramática do vocalista, que se utiliza do telão com seu rosto, vestido de terno e óculos, cantando a primeira parte e depois desconstrói a performance de uma letra fortíssima. Foi uma surpresa multissensorial de me deixar sem palavras na hora, só senti haha. Eu vi diante de meus olhos minha infância, meus sentimentos de adolescente, os sons que estão moldando meu presente e com certeza se afirmaram para meu futuro musical, um legado de meu pai pra toda  a vida.

Setlist São Paulo 29/04/2016

The King of Sunset Town
Cover My Eyes (Pain and Heaven)
Power
Pour My Love
80 Days
Sugar Mice
Afraid of Sunrise
Easter
You’re Gone
Kayleigh
Sounds That Can’t Be Made
Afraid of Sunlight
King

Encore:
The Invisible Man

Encore 2:
Beautiful
Garden Party

A música em minha vida é fonte de inspiração e algo que está presente praticamente em todo momento. As letras, os instrumentos e mensagem sonora que cada uma delas inspira em mim é algo que eu respiro diariamente e ter a oportunidade de experimenta-la em seu formato cru, ao vivo, é algo que eu estimo muito, desde que nas condições ideais para aproveitar 100% da experiência.

Agora resta esperar por mais shows incríveis como esses, quem sabe shows individuais de bandas como Katatonia, Riverside ou até mesmo quem sabe na próxima turnê do Opeth!

Um abraço e até mais com mais um Diário de Bordo!

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