Contos by Gusta

Conto – No brilho da Lua

Conto: No brilho da Lua - arte Nick Muth

O brilho da Lua sempre atraiu os olhos de Vanessa, refletido em toda e cada superfície. Era como se a Lua estivesse mais próxima, ao alcance de suas mãos. Era como se Vanessa pudesse tocar seu brilho e tê-lo para si. O brilho que refletia em seu anel de noivado, que refletia num copo de vinho da sacada de seu apartamento, nos olhos do noivo que já não tinha tanto apreço.

– Hoje a Lua está tão linda quanto você sempre diz gostar. – Disse Hans.

– É… Está.

– Vanessa, precisamos conversar sobre o que você está sentindo. Nosso casamento é no mês que vem e mais parece que nosso amor será enterrado do que celebrado…

– Está tudo bem… Acho que estou nervosa, só isso…

Vanessa repetia a mesma história para seu noivo, para seus amigos, para si, sem entender onde foi parar o brilho da Lua nos seus dias. Os preparativos exigiam cada vez mais de sua atenção. Ela pessoalmente havia se encarregado de escolher os arranjos, a montagem na igreja, os pratos, até que pouco tempo antes, decidiu passar a responsabilidade para um profissional de casamentos. Hans não entendia como ela podia deixar o profissional escolher rosas brancas ao invés de vermelhas, só por combinar com as cores da igreja.

– Ele sabe o que vai ficar mais bonito para nós.

– Não, ele não sabe! Esse é o nosso sonho, o nosso casamento! Eu fiz tudo exatamente como nós planejamos e você de repente se fechou no seu mundo, olhando para o céu, para as estrelas, menos para mim. O que acontece, Vanessa?

– Nada… Não é nada…

– Como quer que eu reaja com essas pausas e suspiros? E essas longas caminhadas que você faz a noite?

– São apenas caminhadas, nada mais.

– Apenas caminhadas? Sabe como nosso bairro tem aparecido no noticiário. Três pessoas desapareceram só nesse mês. Você não pode ficar zanzando por aí no escuro.

Um beijo foi sua única reação, um beijo salgado, seguido de uma noite de suor e fuga enquanto seus pensamentos vagavam para fora de seu corpo.

– Mais uma noite, onde está você? – Ela pensava, enquanto roçava seu corpo contra o de Hans.

– Não te entendo mesmo. Uma hora você está toda desligada, na outra está em cima de mim até tarde. Vamos dormir, você acorda cedo amanhã. – Respondeu Hans, antes de dormir.

No trabalho, o chefe de Vanessa estava mais empolgado do que ela para o casamento. Ele fora convidado como padrinho, depois de longos dez anos de caminhada juntos, mas nos últimos dias, Vanessa mal conseguia olhar nos olhos de Jon, que não perdia uma oportunidade de sorrir. Os dentes amarelados de Jon estavam aparecendo demais, assim como sua mania de rir pausadamente e alto o suficiente para ser ouvido por todo o andar. Com os olhos fundos e lacrimejando, ela se curvava na frente do computador, com os fones de ouvido no máximo, tentando se isolar de tanta felicidade.

Nunca acordar tão cedo fora um suplício para uma viciada em trabalho como Vanessa. Horas e horas não passavam até a hora de fugir dos encontros sociais na hora do almoço, e muitas mais se arrastavam pela jornada até o segundo exato em que o horário terminava. Seus colegas de trabalho cochichavam pelos corredores sobre a expressão abatida da até então jovial e enérgica mulher que liderou uma empresa para fora da crise.

Em casa, o mesmo se repetia. Até o Sol se por, Hans ficava esperando pelos longos banhos de sua noiva, aguardando um único sorriso ou um beijo apaixonado. Em segredo já procurara um terapeuta, para tentar discutir o caso da esposa que se fechou. As respostas ele procurava em casa, mas as perguntas se acumulavam nas horas pagas no divã. Nos dias que a Lua aparecia no céu, Vanessa dizia sempre a mesma coisa.

– Vou caminhar. – Ela sorria com o canto da boca enquanto se despedia.

– Já disse que está esbelta, pra que exagerar nos exercícios?

– Que seja…

O sorriso desaparecia, e Vanessa também. Ela andava meio quilometro afastado de seu condomínio, passando por outros prédios iluminados, tão altos quanto o seu, um bar que estava sempre animado, algumas lojas de roupas. Seu destino era uma praça arborizada em meio a tanto concreto. Ela andava por metros adentro até um parapeito, uma grade que dava para uma fonte, metros abaixo. Atração da praça, a fonte era iluminada e, durante a noite, uma vez por dia, seus esguichos eram ligados e dançavam com uma música que era colocada para entreter os passantes. Vanessa ficava olhando fixamente para a água, mesmo depois do show acabar. Ela observava a Lua refletida na água, nos poucos momentos em que as nuvens não a cobriam, no silêncio, até o fechamento do parque, às onze da noite.

– Mais uma noite, onde está você? – Ela pensava.

E voltava para casa, cabisbaixa. As caminhadas depressivas de Vanessa continuavam enquanto o casamento se aproximava. Até que numa noite de domingo, Hans notou um sorriso diferente em Vanessa.

– Cheguei. Nossa, como estou cansada.

Hans perdeu a calma e despiu sua noiva a força. Ele jogou sua blusa de algodão no chão e rasgou sua saia do joelho até a cintura, tentando arranca-la. Os objetos que estavam em sua bolsa, que estava semiaberta enquanto Vanessa guardava suas chaves, foram espalhados pelo chão da sala. Vanessa não gritou, não reagiu. Hans inspecionou cada parte de seu corpo, procurou por marcas estranhas ou cheiros novos, e nada encontrou. Vanessa também não respondeu, não repreendeu. Com um olhar gelado, ela recolheu suas roupas, sorriu e foi para o quarto. Seu noivo dormiu na sala, com os olhos abertos, enquanto Vanessa aproveitou nua a espaçosa cama de casal. Os dias que seguiram o ataque passaram sem palavras. Hans procurava sua noiva em olhares fugazes, perdidos em outro lugar.

– Ela está me traindo, só pode. – Dizia ele, para seus amigos no trabalho.

– Não acredito. E todas aquelas juras de amor que ela fazia?

– Às vezes ela encontrou um homem que dá um trato nela.

– Cala a boca, seu merda.

– Calma aí Hans. Você que veio falando que sua noiva tá te traindo, a gente tá só supondo.

– Porque você não segue ela numa dessas caminhadas?

– O cara do casamento tem me ligado todo dia pra fazer algum acerto, estou com trabalho acumulado, não tenho tempo… Mas eu preciso saber…

– Amanhã é sexta. Aqui no trampo a gente dá um jeito pra você. Desliga seu celular quando chegar em casa e vai.

– Mas e o cara do casamento? Ele é muito chato, vai tentar ligar em casa, ou até pra Vanessa.

– Então deixa seu celular comigo. Se ele ligar, eu enrolo ele, deixa comigo meu chapa e vai descobrir qualé que é dessas caminhadas da sua mina.

Mais uma vez, Vanessa voltara sorrindo para casa, na noite da quinta-feira que precedia o plano de Hans. Ele não quis conversa, manteve seu foco no que podia estar acontecendo. Aquele era o mesmo sorriso de quando eles se apaixonaram. Ele tinha certeza de que estava perdendo Vanessa, não sabia o que pensar sobre isso, uma mescla de raiva e tristeza que não o deixava dormir, mas ele queria ver por si o momento que deixava sua futura esposa feliz.

Na noite da sexta-feira, Vanessa saiu às sete da noite.

– Olá, senhor porteiro, sabe me dizer para onde minha esposa foi? Ela esqueceu o celular.

– Ela foi em direção ao centro, meu jovem.

Hans caminhou atrás de Vanessa até se aproximar do bar, por onde ela passou sem parar. Ele entrou, ficou alguns minutos, e continuou a acompanhando da janela da esquina, até ela desaparecer na reta. Logo ele voltou a caminhar em passos apertados, até vê-la entrar na praça. Vanessa caminhou até o parapeito para observar a fonte e Hans sentou alguns metros atrás, num ponto em que talvez sua noiva não conseguisse enxerga-lo atrás de arbustos que cobriam o banco.

Faltava ainda uma hora para começar o show de luzes, mas Vanessa ficava fixada na água. As pessoas foram se amontoando ao seu redor, ninguém se aproximava. A Lua brilhava no céu como um holofote. Sua luz era tão forte que Hans podia vê-la refletida no rosto de sua esposa. A show começou, o show acabou. As pessoas se afastaram e Vanessa ficara isolada observando o reflexo da Lua na água.

– Mas… Ela só está observando a Lua? – Se perguntava Hans. – Será que… Meu Deus, eu rasguei uma das saias que ela mais gostava… Que besteira a minha…

Faltando quinze minutos para o parque fechar, Hans voltou com o coração na mão correndo para casa. Ele correu o máximo que pode para esperar a esposa sem que ela desconfiasse. No caminho ele já pensava em abrir um vinho, colocar duas taças e deixar uma pequena caixa de chocolates que ele estava guardando para um dia mais próximo do casamento, uma marca especial, que representava algo muito importante para os dois.

Faltando quinze minutos para o parque fechar, Vanessa sorria olhando para a água.

– Aí está você.

Apesar da água límpida, seu reflexo estava turvo em meio a luz do luar. Seus longos cabelos negros não apareciam, seus olhos não eram azuis, mas verdes. Seu batom vermelho estava esmaecido entre pequenas ondas que se formavam com as gotas que jorravam do centro da fonte até a borda calma da água.

– Você parece tão triste.

– É porque você não está comigo.

– Eu quero, mas…

– Não tem certeza.

– Não é isso…

– Venha comigo. Sabe que meu coração é seu.

– E o meu…

– Venha minha amada. Sabe que seu coração é meu.

– Eu…

Uma lágrima caiu do rosto de Vanessa e espalhou seu reflexo turvo. Ao vê-lo novamente, o brilho a alegrou. Ela sentiu que estava tudo bem. Vanessa se debruçou no parapeito e então pulou. Hans ficou esperando até a meia noite para sair pelas ruas, ligando para seus amigos e familiares a procura de Vanessa.

– Eu me lembro de você, você foi o último que saiu daqui ontem, correndo, não foi? – Dizia o homem que era responsável por fechar a praça depois das onze da noite.

A polícia vasculhou o parque e as redondezas, mas Vanessa não foi encontrada, jamais.

 

Por Gusta. Arte por Nick Muth


Como prometido, aqui está o primeiro de muitos (espero muitos mesmo) contos que pretendo desenvolver aqui no blog. Outrora eu já havia tentado explorar a ideia, com o projeto Letras e Tinta, mas acabou não indo pra frente pois não estava gostando do rumo que a história estava tomando. Eu tinha uma ideia de fazer uma história mais longa, em capítulos, com base nas artes do Frank William, não rolou.

Agora reforço a ideia com a nova parceria com meu brother ganso de longa data, Nick Muth, que já inclusive fez parte do Beyond Project. Pretendo escrever histórias curtas como esta, que pude desenvolver em algumas horas, sem apego, como forma de exercitar minha criatividade e gerar contos rápidos, inicialmente inspirados nas artes exóticas do Mr. Muth.  A propósito, caso tenha se interessado pela arte dele, confira aqui na lateral do blog como encomendar artes comissionadas com ele! Também estou aceitando sugestões de temas ou imagens para me inspirar e escrever sobre, logicamente dando o crédito e parceria pelo feito. Saiba mais no formulário logo abaixo. Também estou aceitando correções caso encontre algum erro que eu deixei passar!

Curtiu? Não esqueça de comentar e compartilhar, afinal, estou publicando estas pequenas histórias por aqui como forma de divulgação. Aproveita pra curtir a página do blog no Facebook. Confira os demais contos no índice que fica aqui na lateral do blog. Um abraço e até mais!

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