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Crônicas de Szaksia – Capítulo 2

– Arjen, tem certeza que é só chegar e pegar? Não tá fácil demais não?

– Fica tranquila Freya. Só a gente sabe onde a espada tá escondida. Não te disse que valia a pena ter comprado aquele lote de documentos? Meu instinto monetário sabia que estávamos trocando alguns dudas*¹ por possibilidades bem mais valiosas.

– Você é um ladrão dentro de uma armadura de cavaleiro… Todo dia levanto e fico pensando como conseguiu um título oficial de cavaleiro.

– É porque eu sou Arjen Darksteel…

– Das montanhas de Vallra, onde o Sol astro maior descansa tranquilo no Império Azul, blá blá blá. Precisa repetir toda vez essa baboseira?

– É minha frase triunfal de abertura, como pode ser baboseira. Você, uma sacerdotisa renegada, que preferiu abandonar um cargo no alto escalão do Império Rosa para ter uma “vida radical”, devia ter uma frase triunfal de abertura também.

– Não gosto de frases triunfais, nem de rosa.

Arjen Darksteel e Freya Idna Svendatter, dois nomes poderosos para dois caçadores de artefatos perdidos. Arjen carrega o sobrenome dos lendários Darksteel, a família de ferreiros que por sete gerações serve ao exército do Império Azul, com o que as montanhas de Vallra tem melhor a oferecer, uma mistura de minérios que foi nomeada como Aço Negro de Vallra. Vallra é o único lugar de Szaksia que possui o instável Aço Negro e a família Darksteel a única entre centenas de famílias de ferreiros que conseguiu domá-lo. Ao invés de forja-lo, Arjen prefere vesti-lo. Com um empurrãozinho de sua mãe, a contragosto de seu pai, aos dezesseis anos, conseguiu o título oficial de cavaleiro. Diferente dos cavaleiros “de verdade”, como bem diz Freya, Arjen não passou pelo treinamento e pelas provas que todos são obrigados como parte do ritual de transformação de menino em homem. Ele simplesmente recebeu o título, como honra aos serviços prestados por sua família. Arjen faz questão de exibir o pingente que o nomeia como um bravo guerreiro, mas suas habilidades com a espada só lhe servem para tira-lo com dificuldade das idiotices que ele mesmo provoca. Aos dezenove anos, Arjen já possui vasta experiência na arte da negociação. Quando criança, o garoto já comprava brinquedos velhos de seus amigos e vendia para outras crianças pelo dobro do valor. Aos dezoito anos, quando conseguiu sua Licença para livre circulação*² , começou a viajar em busca de artefatos para ampliar seu lucro. Seu sonho: construir seu próprio castelo. A meta: 1 milhão de dudas. Valor atual: 10.539.

A busca por artefatos levou Arjen até Freya, que tentou enganá-lo na cidade de Parason vendendo um mapa falso. A garota parecia honesta, com seu jeito meigo e aveludado. Quando Arjen descobriu que foi enviado para um galpão em uma fazenda de porcons*³ e quase foi pisoteado por eles, caçou a garota para resgatar sua grana. A garota, viciada em corrida de gansos, apostou tudo em um azarão e perdeu. Desde então, há oito luas brancas*4, Freya o segue. Ela já pagou sua dívida, porém, sua vida, e a de Arjen, ficou bem mais lucrativa utilizando seus dotes sedutores para arrancar informações privilegiadas por onde passam. Freya nasceu em Volte, no Império Rosa. Prodigiosa na manipulação da energia da vida, a garota logo foi iniciada no sacerdócio real do Império, porém, quando descobriu que teria que voltar sua vida à pureza e ao altruísmo, num caminho sem volta, fugiu. A garota se infiltrou em um navio de carga e conseguiu ser descarregada no Império Azul sem suspeitarem do peso excessivo de um caixote que deveria constar um lote de poções.

Na cidade de Teraf, Arjen comprou por 5.000 dudas um lote de documentos ilegais com um membro da Lotus Preta, uma organização rebelde e tida como criminosa nos nove Impérios, que distribui dinheiro para a parcela pobre da população de Szaksia vendendo entre impérios cargas roubadas, artefatos raros e documentos polêmicos. Um dos documentos indicava a possível localização de um artefato lendário, perdido da era antiga, a espada Glacius. A espada é mencionada em várias lendas da era antiga, como uma arma empunhada por guerreiros como Van der Ban, um dos colonizadores de Szaksia, Jugenheim, o homem que matou Van der Ban para roubar a espada, e Van der Ban II, em sua vingança contra Jugenheim. Cobiçada e passada de conquistador a conquistador, a espada acabou sendo perdida em algum momento da história. O Império Verde investigava sua localização em segredo e o relatório de pesquisa foi roubado pela Lotus Preta, chegando até Arjen. Indícios apontavam para as colinas subterrâneas de Zonia, ao sul congelante do continente, para onde Arjen e Freya rumaram. Um local remoto, inabitado.

A entrada para as colinas subterrâneas estava correta. Nas montanhas em formato de um corpo feminino, entre os seios, procure pela porta gigante. Sem a chave para abri-la, Arjen preferiu cortar a fechadura com sua espada de Aço Negro. Não foi preciso mais do que meia hora para encontrar o local premiado entre as colinas de musgo. A única colina totalmente congelada, com a espada Glacius cravada em seu topo. Para Freya era inconcebível que em centenas de anos, ninguém tenha vindo reclamar o artefato. Para Arjen, uma tacada de sorte e malandragem. Até um dragão vermelho emergir.

Crônicas de Szaksia - Capítulo 2 - Arjen Darksteel e a espada Glacius

– Eita Arjen, eu falei que tava fácil demais. – Gritou a garota, ao se esconder em algumas pedras, longe da criatura.

– Calma dragãozinho, tranquilo, amigo.

O dragão vermelho gigante direcionou sua enorme boca, preparando uma rajada poderosa em direção a Arjen, ao perceber que o cavaleiro estalava os dedos, como se estivesse acalmando um filhote de um cão doméstico.

– Criatura infame, porque conjectura como se estivesse diante de uma criatura domesticável? – Urrou o dragão vermelho.

– O que um dragão vermelho faz no Império Azul? Dragão vermelho não deveria estar no Império Vermelho?

– Observação correta, garota humana com cheiro de pureza, todavia minha missão é assegurar que este artefato se mantenha inviolado por seres de intenção errônea.

– Legal, mas não era só você levar a espada para junto dos outros dragões vermelhos, no império Vermelho e ela estaria mais segura?

– Cale-se cavaleiro com cheiro de ladrão. Um contratempo prendeu-me nestas colinas, das quais estou fadado a passar minha eternidade como guardião da preciosa espada Glacius, a congeladora de mares, assim como seus corpos, empilhados às centenas daqueles que jazem nestas colinas.

– Não tô vendo nada.

– Arjen, dá uma olhada do outro lado da colina.

Arjen desviou seu olhar do dragão para avistar centenas de esqueletos, os quais se escondiam onde o dragão repousava.

– Maluco, se é dá ou desce, tá na hora do show, Freya, vamo lá!

– Eu falei que estava estranho só chegar e pegar…

Freya revelou sua especialidade como sacerdotisa ao dragão: o domínio da natureza. Manipulando o musgo das colinas vizinhas, ela prendeu a boca e os membros do dragão com a massa formada.

– O bicho é forte, o musgo não vai segurar por muito tempo. Pega a espada e vamos sumir daqui.

– É um dragão vermelho, imagina se eu arrancasse uma escaminha dele e levasse como prova de conquista?

– Já vamos ficar com a espada, anda logo.

O cavaleiro não se contém e ao arrancar a espada do chão, aproveitou para cortar uma escama pequena do pescoço do dragão.

– Ele não vai sentir falta, olha quantas escamas ele ainda tem embaixo dessa.

– Corre Arjen!

O dragão furioso escapou do musgo de Freya. Enquanto corria, ela tenta atrasá-lo criando muros com o musgo, porém a fúria e o fogo atravessam o bloqueio como um papiro velho.

– Abdiquem da escama e da espada imediatamente ou queimarão lentamente até que os fluídos de seus corpos evaporem!

– Você ia matar a gente de qualquer jeito! – Exclamou Arjen.

– Lógica irrefutável, entretanto, abdiquem!

Durante a perseguição, o dragão seguiu a dupla até as proximidades da entrada das colinas subterrâneas. Uma bola de fogo atingiu a parede próxima, soterrando-a. Sem saída, Arjen empunhou a Glacius. Ele sentiu a espada congelar sua mão por um instante, até que ele e a espada pareceram estar em convergência. Ele disparou uma rajada de gelo, que, no encontro com uma bola de fogo, derrubou o dragão e abriu uma cratera na entrada da colina. Antes da fuga, o dragão os amaldiçoou.

– Carreguem minha escama e meus primos e os primos de meus primos o perseguirão até findarem sua existência. – Urrou o dragão ao ver a dupla atravessando os escombros e fugindo. – Eu, Zurr, derrubarei estas colinas e perscrutarei o cheiro de pureza e o cheiro de ladrão até encontra-los! Eu, Zurr, e meus primos…

Longe do calor da batalha, Arjen e Freya comemoraram. Arjen envolveu a espada em um pano negro e prendeu-a em sua cintura.

– Quanto acha que vamos conseguir por essa espada?

– Uns 500.000 duda, pra cada, minha elementar companheira.

– Esplêndido, garoto do cheiro de ladrão.

– Por falar em cheiro, que história é essa de cheiro de pureza?

– Cala a boca e vamos…

 

…continua

Leia os demais capítulos aqui: https://kairasensui.wordpress.com/cronicas-de-szaksia/

 

*¹ – Duda, unidade monetária de Szaksia

*² – Licença que permite que os cidadãos dos nove Impérios possam circular livremente fora dos limites de sua cidade natal

*³ – Espécie de porco gigante, cerca de 3 metros de altura como adulto, agressivo e difícil de domar, mas com o bacon dito como divino por aqueles que o consomem

*4 – Uma lua branca = 1 mês

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